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Formação Direito - UFMG

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A proliferação de ratos em Brasília depois do golpe, por Sebastião Nunes

A proliferação de ratos em Brasília depois do golpe

por Sebastião Nunes

– Pedro! – trovejou Deus, quase matando de susto os anjos e os querubins que rodeavam Seu trono.

– Droga – resmungou São Pedro, que jogava porrinha com o arcanjo Gabriel. – Isto aqui já foi mais tranquilo.

Enquanto Gabriel, suspirando, recolhia os palitos e a caixa de fósforos, São Pedro disparou rumo ao trono divino.

– Pois não, Senhor – disse o guardião das chaves celestiais. – Às Suas ordens!

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Um dia na vida conturbada do urubu que tinha o rabo preso, por Sebastião Nunes

Um dia na vida conturbada do urubu que tinha o rabo preso

por Sebastião Nunes

O almoço chegara ao fim. Deliciado, o urubu-rei-do-planalto-central raspava os derradeiros fiapos da carniça que ele e seu bando devoravam. Era uma carniça enorme, fedorenta como ela só. Talvez a carniça da Previdência Social. Quem sabe a carniça da Educação Fundamental. Ou ainda a carniça dos Direitos dos Trabalhadores. Mas que era deliciosa, fosse a carniça que fosse, lá isso era.

Saciado, o urubu-rei-do-planalto-central arrotou. Bocejou. Abriu as longas asas escuras espreguiçando-se com prazer. Apoiou as patas no chão e, bico erguido, lançou-se no espaço azul da manhã que findava.

– Diacho! – resmungou ele, constatando que as asas lhe pesavam que nem chumbo. – Estarei ficando mais velho do que sou? Nunca me pesou tanto o corpo nem jamais tive tanta dificuldade para alçar voo. Alguma coisa está errada.

Virou o bico para trás e viu que, logo ali perto, voava o urubu-secretário-geral-do-planalto-central.

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O nariz de Pinóquio e os narizes dos figurões da república, por Sebastião Nunes

O nariz de Pinóquio e os narizes dos figurões da república

por Sebastião Nunes

Preocupadíssimo, Geppetto se postou diante do espelho mágico e indagou:

– Espelho, espelho meu, haverá nariz mais comprido que o de Pinóquio?

– Ah, ah, ah! – riu-se o espelho da ingenuidade do velho marceneiro. – Só no Brasil, meu caro, existem milhares de narizes mais compridos que o de seu filho.

– Não acredito, seu pedaço de vidro estúpido – irritou-se o velho. – E como eles conseguiram narizes tão compridos?

– Mentindo, uai! – respondeu o espelho à moda mineira. – Não foi colecionando mentiras que o nariz de Pinóquio cresceu tanto?

– Tá danado – resmungou Geppetto, e foi bater na porta do filho.

– Pinóquio, meu filho, abre essa porta. Não adianta nada esgoelar!

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Como foram assassinados os moleques João Huck e Luciano Dória Jr., por Sebastião Nunes

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Foto: Tania Rego/Agência Brasil

Eram gêmeos univitelinos: cara de um, focinho de outro. Nasceram num dia de sol quente na favela do Quebra-Pau – qualquer um sabe onde fica, não sabe?

Na hora de escolher os nomes, o maior fuzuê: a mãe, fanática pelo maridão da Angélica, exigia que um se chamasse Luciano Huck. Já o pai, vidrado no bon-vivant das noitadas paulistanas, não abria mão de João Dória, inclusive com o Jr.

Por que não fizeram assim, um nome chique e midiático para cada um? Não sei: mistérios insondáveis de pobres turrões.

Brigaram de soco, pontapé, beliscão e mordida. Quando a ambulância chegou, chamada pelos vizinhos, gemiam ensanguentados no chão da cafua. Os filhotes? Quase se acabando de tanto esgoelar num colchonete fedorento.

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Como um recém-operado de catarata enxerga a República-das-Bananas, por Sebastião Nunes

Como um recém-operado de catarata enxerga a República-das-Bananas

por Sebastião Nunes

Há cerca de um mês fui operado da porra do olho direito. Nada de dramático: coisa de 30 minutos e estava liberado. Pronto para enxergar o mundo azul? Não. Na República-das-Bananas não tem azul. Nem verde. Nem amarelo. Só cinza.

Durante 15 dias pinguei colírios variados no olho avariado, 15 vezes a cada 24 horas. Voltei ao médico três vezes, até que na última visita receitou óculos novos e mandou voltar seis meses depois para operar a porra do olho esquerdo.

Tudo bem? Não. O mundo continua cinza.

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Marx e Engels visitam Machado de Assis para falar de revolução, por Sebastião Nunes

Imagem: Reprodução

Por Sebastião Nunes

Corria o ano de 1882. Comodamente instalados numa velha otomana, dois alemães esperavam o dono da casa. Acabavam de chegar de Londres.

– Será que vai dar certo? – perguntara o mais velho, antes da viagem.

– Não tenho dúvida – respondeu o mais moço. – Um sujeito que escreveu uma novela como “O alienista” e um romance como “Memórias póstumas de Brás Cubas” deve compreender tudo desse país. Ou quase tudo.

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O Cavaleiro da Triste Figura enfrenta o Cavaleiro da Pavorosa Carranca, por Sebastião Nunes

O Cavaleiro da Triste Figura enfrenta o Cavaleiro da Pavorosa Carranca

por Sebastião Nunes

– Veja como são as coisas, amigo Sancho – dizia Dom Quixote ao escudeiro Sancho Pança, enquanto vagabundavam por terras manchegas. – Aqui estamos em busca de aventuras e ouvi dizer que, em Brasília, um terrível nigromante apronta horríveis traficâncias contra o povo. Creio que devemos confrontá-lo e derrotá-lo em combate justo, para defesa dos ofendidos.

Sancho coçou a barbicha e perguntou:

– E que Brasília é essa, meu senhor?

– Uma espécie de Madri tropical de uma república-banana chamada Brasil, a existir no futuro remoto, habitada por 80% de papagaios e 20% de ladrões.

– Tanto papagaio assim?

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Bob Dylan, quem diria, nasceu cresceu e morreu no Cariri, por Sebastião Nunes

Bob Dylan, quem diria, nasceu cresceu e morreu no Cariri

por Sebastião Nunes

Com a enxada no ombro, o jovem Bob Dylan palmilhava a tórrida estrada que levava ao algodoal raquítico. Suava que nem peba. O sol queimava, os beiços gretados pediam água. A estrada parecia interminável. Para aguentar, começou a entoar a cantiga que andava matutando nas horas de folga:

– Quantas istrada havera um home de parmilhá

Inté qui de home havera de ser chamado

Quantos mar havera uma pomba branca de sobrevuá

Inté pudê na areia drumi...

Cantava e marcava o compasso com os pés descalços. Mal percebeu que estava chegando. Música era bom por isso.

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Vamos começar tudo de novo?, por Sebastião Nunes

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por Sebastião Nunes

Durante milênios, filósofos de todas as correntes, tendências e manias especularam sobre o funcionamento de nosso cérebro.

Ocupará a crueldade um determinado escaninho?

Onde se localiza a prudência?

A capacidade de amar nasce conosco ou é acrescentada mais tarde?

E a alma? Sua origem está no cérebro, no estômago ou no coração?

O que no princípio não passava de sucessivos saltos no escuro aprimorou-se com o tempo e novos e notáveis instrumentos de especulação e pesquisa.

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Machado de Assis e Carolina visitam o MASP num dia festivo, por Sebastião Nunes

Machado de Assis e Carolina visitam o MASP num dia festivo

por Sebastião Nunes

– É, para mim, motivo de especial satisfação inaugurar este magnífico Museu de Arte – arengou a rainha Elizabeth II, em seu discurso de inauguração da nova sede do MASP, em 8 de novembro de 1968. E continuou: – A sua beleza, simplicidade e a perícia com que foi construído tornam-no mais um impressionante exemplo do espírito de iniciativa dos paulistas.

Os convidados aplaudiram com entusiasmo, excelentes puxa-sacos que eram. Todo sorrisos, o príncipe Filipe examinava com prazer as paulistanas bonitas.

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Dois capítulos de “Somos todos assassinos”, minha ficção sobre publicidade, por Sebastião Nunes

Dois capítulos de “Somos todos assassinos”, minha ficção sobre publicidade

por Sebastião Nunes

Enquanto os livros antigos não são reeditados, cato de vez em quando alguns textos que publico como amostra e, sem um pingo de vergonha, certo de sua atualidade nestes tempos de golpe e de golpistas. Hoje são duas páginas do STA.

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Acalanto triste (porém esperançoso) para um país em ruínas, por Sebastião Nunes

Uma releitura brasileira de um dos textos fundamentais da poesia oriental, o “Mantiq ut-tair”

Por Sebastião Nunes

Certo dia, o rei dos pássaros deixou cair uma pena, uma simples pena, bem no centro do maior deserto da Terra.

            Mas era uma pena tão magnífica, de tal forma maravilhosa, que os pássaros que a encontraram, muitos anos depois, não tiveram a menor dúvida: era uma pena de seu rei.

            A descoberta correu de bico em bico e, dentro de mais alguns anos, todos os pássaros do mundo visitaram o deserto e viram, deslumbrados, a primeira prova verdadeira da existência de seu desconhecido rei.       

            Sabiam, por velhas lendas, que o rei dos pássaros tinha construído seu ninho no ponto mais alto da mais alta montanha da Terra.

            Também sabiam, narrado de pais para filhotes, que o nome secreto de seu rei queria dizer “trinta pássaros”.
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O que nos reserva o futuro: como se divertirão nossos filhotes inclames, por Sebastião Nunes

Por Sebaestião Nunes

Continuando minha análise do futuro controlado pelos inclames, eis uma pequena amostra de uma festança entre eles, talvez num clube particular e exclusivo, quem sabe num condomínio fechado. Se não for assim, será quase assim.

O PRAZER DE CHURRASQUEAR

Grupo numeroso de inclames, funcionários de multinacional, costumava reunir-se semanalmente em animadíssimo churrasco. Levavam família toda: consortes e sogros e filhos e pais e avós. Bisavós e cunhados e concunhados e genros. E noras e carros e gatos e cachorros.

As carnes do famoso churrasco eram sorteadas na hora, entre os participantes.

As picanhas (sempre em número de quatro) eram extraídas da bunda de duas das buclames-sogras.

As maminhas, dos peitos de quatro das buclames-avós.

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As novas castas sociais e a vertiginosa ascensão dos inclames, por Sebastião Nunes

As novas castas sociais e a vertiginosa ascensão dos inclames

por Sebastião Nunes

Classe média é um estado de espírito, ao contrário do que pensam sociólogos, economistas, publicitários, juristas, políticos e estatísticos.

            As duas principais características da classe média são consumismo exacerbado e individualismo predador. A união dessas duas características cria o típico estado de espírito inclâmico, voltado para a destruição em massa de ambientes, bens e pessoas, gerando o individuo que denominei inclame.

            Foi o surgimento das grandes cidades que propiciou a amplificação dessas duas características até o grau extremado que se verifica hoje.

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Sexta lei do decálogo da classe média: nosso admirável mundo novo, por Sebastião Nunes

Sexta lei do decálogo da classe média: nosso admirável mundo novo

por Sebastião Nunes

SOMAR NÃO É SUBTRAIR

Tendo absorvido sua porção diária de Soma* um casal de inclames (indivíduos de classe média) perdeu por completo a (sic) tesão**. Sentiram-se então pastosos que nem abacate liquidificado no que se chama vitamina de abacate nos botecos de mauseráveis da zona boêmia do Baixo Meretrício (versão popular do Alto Meretrício, alocado junto aos poderes executivo, legislativo, judiciário e à mídia televisada, oralizada e impressa).

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Vídeos

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Quando Tiradentes arrancou um dente a Joaquim Silvério e o que aconteceu depois

Por Sebastião Nunes

Na manhã de 15 de janeiro de 1789, um homem louro e gordo entrou às pressas num sobrado da Rua Direita, em Villa Rica de Nossa Senhora do Pilar do Ouro Preto.

– Ai, ui, ai – gemia ele, enquanto batia na pesada porta de maçaranduba do segundo andar, na qual se lia em letras graúdas: DENTISTA.

– Entre – gritaram de dentro. Apertando um lenço sujo contra o lado esquerdo da cara pelada, o homem entrou.

– Olá, Silvério – disse o dentista. – Que bons ventos o trazem? Sabe que é raro me encontrar aqui, não sabe? Quase sempre trabalho na casa dos clientes, levando a tralha. Eta gentinha preguiçosa essa de Minas, sô! Sofre, mas não se mexe!

– Bons ventos, uma droga – resmungou o gordo, tirando o capote de algodão-macaco. – Este dente está me matando!

– Senta aqui – disse o dentista, mostrando a cadeira de encosto. – É a que uso quando atendo em casa. Vamos ver o que tem esse infeliz que está te matando.

– Faz três dias que começou. No princípio, foram só umas pontadas espaçadas. Depois...

– Sei – disse o dentista. – Aí você fez compressa de água quente, bochechou com água e sal e continuou doendo. Não foi assim?

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Áudio

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