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Formação Direito - UFMG

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O dia das crianças de Hitler e Stalin, por Sebastião Nunes

O dia das crianças de Hitler e Stalin, por Sebatião Nunes

Quem passasse pelo parque veria apenas duas crianças bonitas, brincando com seus brinquedos vivos, numa manhã macia e esplendorosa.

– Adivinha o que tenho aqui! – disse Hitler sorrindo e estendendo a mão fechada na direção de Stalin.

– Uma mosca morta – respondeu Stalin.

– Errou – disse Hitler. – Uma mosca viva.

– Abre a mão que eu quero ver – duvidou Stalin.

Hitler sacudiu a mão e, com violento arremesso, lançou a mosca sobre a calçada de cimento, onde ela caiu estonteada.

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A velha pulga atrás da orelha de Machado de Assis, por Sebastião Nunes

A velha pulga atrás da orelha de Machado de Assis

por Sebastião Nunes

“Ia eu a entrar na sala de visitas, quando ouvi proferir o meu nome e escondi-me atrás da porta. A casa era a da Rua de Mata-Cavalos, o mês novembro, o ano é um tanto remoto, mas não quis trocar as datas de minha vida só para agradar as pessoas que não amam histórias velhas; o ano era o de 1857.

– Dona Glória, a senhora persiste na ideia de meter o nosso Bentinho no seminário? É mais que tempo, e já agora pode haver uma dificuldade.

– Que dificuldade?

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O dia em que Franz Kafka decidiu ser escritor, por Sebastião Nunes

Por Sebastião Nunes

– Imbecil! – berrou Hermann Kafka. – Você já tem idade suficiente pra fazer as coisas direito, seu idiota!

O pequeno Franz se encolheu e olhou o pai com grandes olhos amedrontados.

– O que foi que sua mãe mandou você comprar?

– Galinha casher.

– E o que foi que você trouxe?

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Visitando um megahipermercado virtual sociopolítico no ano de 2099, por Sebastião Nunes

Visitando um megahipermercado virtual sociopolítico no ano de 2099

por Sebastião Nunes

Minha boneca da Emma Watson parou de funcionar. Inerte na cama, fez com que eu me sentisse viúvo. Desesperado, telefonei para o centro de manutenção da Apple na Califórnia, mas tudo o que consegui foi o telefone da revenda em São Paulo.

Liguei para lá.

– Minha boneca da Emma Watson parou de funcionar – disse eu. – Não fala, não anda, não toma banho, não cozinha, não lava, não passa, não beija, não trepa, não faz nada. Até parece uma daquelas bonecas japonesas vendidas em 2017. Que devo fazer?

– Infelizmente, meu caro senhor, as peças de reposição de sua boneca deixaram de ser fabricadas. Mas tenho ótimas notícias.

E antes que eu abrisse a boca continuou:

Os novos chips desenvolvidos no Vale do Silício, e que acabam de ser lançados mundialmente, clonam com absoluta fidelidade qualquer pessoa de qualquer época.

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Adão Ventura odiaria passar pela vida em brancas nuvens, por Sebastião Nunes

Adão Ventura odiaria passar pela vida em brancas nuvens

por Sebastião Nunes

As largas plantas amarelas dos pés, o negrume descorado da pele e a flacidez opaca do rosto indicavam que o poeta estava se despedindo.

Sentados em cadeiras de ferro pintadas de branco, eu e Jaime ajudávamos Adão a selecionar seus poemas inéditos na babel de infinitos manuscritos, espalhados pela cama também de ferro e também pintada de branco.

Amarfanhado, o lençol não dava conta de recordar os infinitos doentes terminais que tinham saído daquela cama para a autópsia, o necrotério, a cova e o esquecimento.

– O título será “Costura de Nuvens” – disse Adão, olhando para nós com seu ar de falsa insegurança. – Costura de Nuvens é um bom título, não é?

Mais que isso, era uma pepita de absoluta pureza da mina secreta de Adão.

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Preto, pobre e poeta – que puta azar, hein, Adão Ventura? Por Sebastiao Nunes


 

Por Sebastiao Nunes

Vezes sem conta palmilhei, tarde da noite, as ruas do Santo Antônio, bairro de classe média branca de Belo Horizonte. Ao meu lado, o patético poeta negro perseguia inalcançáveis louras de olhos azuis ou verdes, entrevistas numa rua, numa loja, num bar, numa livraria – entrevistas entre sonhos e esperança.

Adão era preto e não sabia. Quase opaco de tão negro, tinha lábios grossos, pés esparramados e a inconsciência do negro recém-forro.

Adão era pobre e fazia de conta que não: bebericava nas mesas do Lucas com a mesma placidez dos brancos remediados e, na hora de pagar, sacava a eterna nota de Cr$100,00, afirmando não ter trocado. Nunca tinha. E nunca pagava.

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Tristezas do Jeca: agonia e morte de dois escritores marginais brasileiros, por Sebastião Nunes

A cancela gemeu. Comprida trilha estreita, pavimentada de pedras irregulares, conduzia à pequena casa em ruínas. Entrei. Bafo de mofo.

Entrou comigo a multidão tristonha de fantasmas arrependidos. Fantasmas de poetas, ficcionistas, cineastas, músicos, atores, fotógrafos, pintores.

Lá dentro, em cima da cama tosca de madeira carcomida, o velho cabeludo estertorava. Sangue coagulado empapava a camisa branca puída. Hemoptise, buraco de bala ou faca, hemorragia gástrica. Eu não sabia o quê. A morte rondava.

Aos 69 anos – era julho de 2007 – José Agrippino de Paula agonizava.

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Um poema satírico brasileiro comentado pelo erudito presidente-golpista, por Sebastião Nunes

Um poema satírico brasileiro comentado pelo erudito presidente-golpista

por Sebastião Nunes

O Brasil, como palco de dramalhões, não tem paralelo no mundo. Colonizado e explorado com voluptuosa preguiça por uma confusa mistura de criminosos e herdeiros da pequena aristocracia portuguesa, perdeu-se no caos. Terra de elites podres, corrupção antiga e velhos golpes que se repetem como se fossem novos. Lá em cima, os poderosos de hoje (crias dos poderosos de ontem) dividem o butim, sempre gordo. Aqui embaixo, a ralé e a classe média baixa (a média alta é tropa de choque dos poderosos) tentam sobreviver, juntando os cacos, os farrapos e a esperança. Ou, como filosofou um amigo esperto, quem tem coragem vai ser traficante; quem não tem, entra para a polícia. A alternativa é jogar futebol ou cantar música brega em programa de auditório, únicas praias em que preto pobre pode ter sucesso e encher o metafórico chapéu.

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Delação de Pedro Malasartes e programa Criança Desesperança, por Sebastião Nunes

Uma semana antes do casório, o Noivo-Velho deixou de lado os preparativos para se dedicar a nova tarefa: lançar uma grande campanha de arrecadação de fundos para rechear os bolsos dos cupinchas.

Reunidos no salão de festas do Palácio do Planalto, ministros, senadores, puxas e deputados fizeram absoluto silêncio quando o Chefão-Golpista-Mor perorou assim:

– Meus amigos, irmãos, camaradas, dar-vos-ei hoje uma rápida pincelada do que tramamos nas madrugadas dos porões.

Pigarreou o grosso pigarro dos velhos e continuou:

– Vamos lançar o notável programa Criança Desesperança, destinado a abiscoitar um trilhão de reais para nossos esvaziados fundos.

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A delação premiada de Pedro Malasartes – Delírios noturnos do velho caduco

Intervenção sobre pintura de Domenico Ghirlandaio

Por Sebastião Nunes

Um grito de arrepiar alma penada atravessou as abóbadas do palácio do... Qual é mesmo o nome daquele bicho de perna comprida, pescoço vermelho e cabecinha preta? Ah, deixa pra lá. Bota aí tapujaca, jabiru, jaburu, tuiuiú, qualquer coisa do tipo.

Quem assim gritou, devastado de medo, foi o noivo-senador, apavoradíssimo, pulando da cama na luxuosa alcova presidencial-golpista.

Acabava de sonhar com uma figura sinistra de dentes compridos e sangue à beça escorrendo pela cara. Assustadora mesmo.

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A delação premiada de Pedro Malasartes – Conversa fiada antes do casório, por Sebastião Nunes

A delação premiada de Pedro Malasartes – Conversa fiada antes do casório

por Sebastião Nunes

Resumo da ópera:

Morrera a mãe do pequetito Pedro em meio aos angustiantes tédios da riqueza mal adquirida. Apenas dois dias após a morte da primeira consorte, mãe de Malasartes, o muxibento pai, poderoso senador da República, de 70 e muitos outonos, arregalou as butucas para cima de bonita ex-miss de apenas 22 primaveras. Como se vê, estava mais é procurando sarna para se coçar. Enfim, trata-se de versão tupiniquim-mambembe do clássico “A bela e a fera”. Estamos na terceira fase dos preparativos de tal casamento.

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A delação premiada de Pedro Malasartes – Preparativos para o casório do pai, por Sebastião Nunes

A delação premiada de Pedro Malasartes – Preparativos para o casório do pai

por Sebastião Nunes

A defunta mãe de Malasartes nem tinha dois dias de enterrada quando o pai do bebê, poderoso senador da república, apontou os bugalhos para cima de deliciosa ex-miss, loira de 20 e poucos anos e olhos de ressaca.

Aliás, o bode velho, passado dos 70, cara mais engelhada do que leito de rio sertanejo durante seca braba, já vinha botando olhares lânguidos na donzela casadoira bem antes da defunta sucumbir aos tédios da gravidez e da riqueza inútil.

Aliás, a donzela casadoira, depois de eleita miss, aventurou-se nalguns cursos de voo curto, daqueles que são chamados, no interior, caça-marido.

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A delação premiada de Pedro Malasartes – O nascimento do herói, por Sebastião Nunes

por Sebastião Nunes

Pedro Malasartes é podre de rico.

Fez fortuna, como a maioria dos brasileiros multimilionários, utilizando com liberalidade os costumeiros instrumentos de enriquecimento rápido de nossa elite: chantagem, fraude, corrupção, grilagem, intimidação, estelionato, sonegação, notas frias, troca e venda de favores, extorsão, agiotagem, formação de quadrilha e, quando não havia recurso mais barato, encomendando assassinatos e queimas de arquivo.

Em pesquisas recentes (2016), realizadas por órgãos internacionais, Malasartes foi eleito um dos 100 maiores canalhas brasileiros de todos os tempos.

Desde criancinha revelou inúmeros talentos para o exercício do poder, talentos que o transformaram em um de nossos mais brilhantes homens públicos.

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Diálogo sobre traidores antigos e traidores modernos, por Sebastião Nunes

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Imagem: Reprodução

Por Sebastião Nunes

Cochilando debaixo de um coqueiro numa praia de Itamaracá, Joaquim Silvério dos Reis foi acordado por um galopar furioso.

Ergueu-se de um pulo, agarrando a espada na mão esquerda e a garrucha de dois canos na direita: “O que vier eu traço”, resmungou convicto.

O cavaleiro, descalço e vestido com trapos, chegou esbaforido, saltou do cavalo e aproximou-se de Joaquim Silvério, caindo de joelhos diante dele:

– Me acuda, pelo amor de Deus! Me salva, porque vão me garrotear!

Sem entender nada, o traidor mineiro olhou aquele mulato baixo, troncudo e moço, que implorava socorro.

– Acalme-se, meu amigo – disse ele. – Aqui você não corre perigo algum.

– Tem certeza? – duvidou o recém-chegado. – Olha que essas terras estão mais do que vigiadas. Os portugueses estão por toda parte, armados até os dentes. Leia mais »

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Chico, meu papagaio de estimação, é danado de sabido, por Sebastião Nunes

Chico, meu papagaio de estimação, é danado de sabido

por Sebastião Nunes

Ouvi um toc-toc-toc no vidro da janela e lá estava ele: meu papagaio verde do bico dourado.

Me levantei para abrir e ele entrou, voando lentamente até seu poleiro.

– De onde está vindo, Chico? – perguntei.

– Da ONU – respondeu ele.

– E o que estava fazendo na ONU, Chico?

– Aprendendo como ganhar dinheiro sem fazer nada.

– Ahhh... disse eu.

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Fotos

Sem colaborações até o momento.

Vídeos

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Documentos

Quando Tiradentes arrancou um dente a Joaquim Silvério e o que aconteceu depois

Por Sebastião Nunes

Na manhã de 15 de janeiro de 1789, um homem louro e gordo entrou às pressas num sobrado da Rua Direita, em Villa Rica de Nossa Senhora do Pilar do Ouro Preto.

– Ai, ui, ai – gemia ele, enquanto batia na pesada porta de maçaranduba do segundo andar, na qual se lia em letras graúdas: DENTISTA.

– Entre – gritaram de dentro. Apertando um lenço sujo contra o lado esquerdo da cara pelada, o homem entrou.

– Olá, Silvério – disse o dentista. – Que bons ventos o trazem? Sabe que é raro me encontrar aqui, não sabe? Quase sempre trabalho na casa dos clientes, levando a tralha. Eta gentinha preguiçosa essa de Minas, sô! Sofre, mas não se mexe!

– Bons ventos, uma droga – resmungou o gordo, tirando o capote de algodão-macaco. – Este dente está me matando!

– Senta aqui – disse o dentista, mostrando a cadeira de encosto. – É a que uso quando atendo em casa. Vamos ver o que tem esse infeliz que está te matando.

– Faz três dias que começou. No princípio, foram só umas pontadas espaçadas. Depois...

– Sei – disse o dentista. – Aí você fez compressa de água quente, bochechou com água e sal e continuou doendo. Não foi assim?

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Áudio

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