Revista GGN

Assine

Opinião

Em busca da sociabilidade e da esperança perdidas, por Maria José Trindade

Em busca da sociabilidade e da esperança perdidas

por Maria José Trindade

“O país real, esse é bom, revela os melhores instintos; mas o país oficial, esse é caricato e burlesco.”
Machado de Assis, “Diário do Rio de Janeiro”, 29/12/1861

Escrita a quase 156 anos, quando o Brasil não havia abolido a escravidão e ainda não éramos República, a frase do Bruxo do Cosme Velho retrata um país dividido e pouco evoluído na sua prática política.

De lá pra cá não avançamos muito. Continuam a sobreviver dois brasis. Um, verdadeiro, feito de um povo bom e trabalhador. Outro, de grandes contradições, no qual a classe política nos envergonha e a elite insiste em jogar nas contas da previdência e das relações de trabalho o rombo que seria tapado algumas vezes, com sobra, com os números inacreditáveis da corrupção.

Leia mais »
Média: 5 (6 votos)

Tsunami, um pesadelo, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Tsunami, um pesadelo

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Ontem sonhei algo muito, muito estranho.

"O carro para na estrada no alto de um morro. Desço a pé até um vale e sigo até uma bela cidadezinha do interior banhada por um rio caudaloso. A estação de trem está deserta, mas as pessoas transitam pelas ruas. Não vejo nenhum carro circulando pela cidade.

Dou uma volta e retorno ao rio e noto que ele está subindo muito e rapidamente. Decido voltar para o carro. Quando chego na estrada a água que desce ladeira abaixo e muita. Logo uma torrente de lama começa a dificultar minha caminhada. Saio da estrada e procuro outro caminho até o topo do morro onde está o carro. Mas uma onda de água, lama, árvores e arbustos desce pelas encontas dos outros morros. Leia mais »

Média: 4.3 (11 votos)

Assassinado aos 15 anos, Guilherme nos ensinou uma lição, por Mário Lima Jr

Assassinado aos 15 anos, Guilherme nos ensinou uma lição

por Mário Lima Jr

Antes de morrer, Guilherme Alves ensinou aos moradores do Rio de Janeiro uma forma de recuperar o orgulho do Estado. No quarto assalto sofrido este ano, o jovem carioca se recusou a entregar o celular aos bandidos, lutou com um deles e foi executado com dois tiros na cabeça, dia 12 de julho. Arriscando a vida Guilherme decidiu seguir aquilo que julgava ser correto.

O filósofo americano Henry David Thoreau defendia uma sociedade guiada principalmente pela consciência dos seus cidadãos, não por governos e leis. As polícias, o Governo e as leis do Rio de Janeiro provaram sua incapacidade de combater a violência no Estado, onde um homicídio acontece a cada duas horas. Resta apelar à consciência humana.

Leia mais »
Média: 4.3 (6 votos)

Moro - o óbvio, por Sergio Saraiva

Ninguém acusa o juiz Moro de ser sofisticado em seus raciocínios – é certo. Tampouco a entrevista concedida ao autodenominado “grupo internacional de jornalismo colaborativo Investiga Lava Jato" poderá ser utilizada como prova de sua força argumentativa.

Moro e Aécio

Moro - o óbvio, por Sergio Saraiva

E, diga-se de passagem, igualmente, o que a Folha traz na sua edição de 30 de julho de 2017 não mostra que os jornalistas do tal grupo tenham feito qualquer força para tirar do juiz declarações que demonstrassem o contrário.

A bem da verdade, quando se espreme o conteúdo da entrevista, mais uma vez, está lá o juiz Moro se justificando de suas decisões.

Tal qual quando é questionado sobre as provas utilizadas na condenação do ex-presidente Lula.  Moro inicia afirmando que tudo está na sentença e que não fará comentários. E, em seguida, comenta. Melhor teria feito se ficasse na declaração padrão: “tudo que tinha para ser dito está nos autos”.

Leia mais »

Média: 4.5 (16 votos)

Azevedo x Dallagnol. A Ferrari dourada e a corriola de asnos, por Armando Coelho Neto

Azevedo x Dallagnol. A Ferrari dourada e a corriola de asnos

por Armando Rodrigues Coelho Neto

Não defendo pena de morte nem sociedade armada. Fui favorável à Bolsa Família, médicos cubanos para desassistidos, defendo direitos humanos, a inclusão social de pobres, negros, índios, homossexuais, sentenciados - seja por cota ou bolsa. Acolhi o perdão de dívidas ao Haiti, acho que o Brasil é um coração de mãe que pode abrigar refugiados. Creio que polícia não poder intervir em problemas de saúde pública e, finalmente, sem encerrar meu rol de aleivosias, digo que no meu carro não tem adesivo “Bandido bom é bandido morto”.

Portanto, se existe uma onda de ódio não parte dos políticos, partidos ou ideias que defendo. O ódio está no seio daqueles que, em nome de Deus ou do diabo, aclamam a sociedade primata, fazem apologia a torturadores e me perseguem por minhas ideias.

Leia mais »

Média: 4.6 (46 votos)

Ordem do dia: todo poder emana do povo, por Sergio Saraiva

“Está nas mãos dos cidadãos brasileiros a oportunidade de, nas eleições de 2018, sinalizar o rumo a ser seguido”. Sob a discreta tutela dos generais. 

General Villas Bôas

Ordem do dia: todo poder emana do povo

por Sergio Saraiva

entrevista do comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, para a Folha de 29 de julho de 2017, merece uma análise cuidadosa. E uma dolorosa reflexão.

A começar pelo tempo investido para que as respostas fossem elaboradas – 23 dias desde o recebimento das perguntas. Não é de se crer que um comandante e uma pessoa tal qual se mostra ser o general Villas Bôas fizesse o jornal esperar por mais de três semanas em função de desinteresse ou indelicadeza - não. Logo, resta a conclusão de que as respostas foram muito bem pensadas antes de serem dadas.

Outra característica que salta aos olhos, quando lemos a entrevista, é o cuidado de contextualizar cada resposta. Mas cuidar também para que cada resposta contivesse, na maioria das vezes, uma frase conclusiva que não deixasse dúvidas de como pensam as Forças Armadas sobre a questão suscitada.

Leia mais »

Média: 5 (11 votos)

A esquerda precisa definir o Lula que quer, por Raphael Silva Fagundes

A esquerda precisa definir o Lula que quer

por Raphael Silva Fagundes

Se hoje alguém se aventurasse a escrever uma biografia de Luis Inácio Lula da Silva, poderia facilmente lograr-se na lama da ilusão biográfica, cometendo aquele equívoco no qual se tenta descrever a vida como “um conjunto coerente e orientado”, uma expressão unitária de uma “intenção” subjetiva e objetiva de um projeto¹. Isso porque a história da maior figura do Partido dos Trabalhadores não pode ser apreendida por meio de uma linearidade, de uma direção firme e coerente, ou pode?

Em 2006, Lula arranca risos e aplausos de uma plateia composta por empresários e intelectuais ao afirmar que pessoas responsáveis abrem mão de suas convicções radicais conforme amadurecem. Diz que tal fenômeno é parte da “evolução da espécie humana”. "Se você conhece uma pessoa muito idosa esquerdista, é porque está com problema". "Se você conhecer uma pessoa muito nova de direita, é porque também está com problema". Depois destacou: "Quem é mais de direita vai ficando mais de centro, e quem é mais de esquerda vai ficando social-democrata, menos à esquerda. As coisas vão confluindo de acordo com a quantidade de cabelos brancos, e de acordo com a responsabilidade que você tem. Não tem outro jeito".²

Leia mais »

Média: 2.6 (10 votos)

O dragão da internet contra o pastor evangélico guerreiro, por Fábio de Oliveira Ribeiro

O dragão da internet contra o pastor evangélico guerreiro

por Fábio de Oliveira Ribeiro

O fenômeno político recente mais importante no Brasil foi o crescimento da bancada evangélica, da qual Eduardo Cunha fazia parte. Apesar de ter sido preso, durante o período em que presidiu a Câmara dos Deputados Cunha sabotou o governo e conseguiu organizar a maioria parlamentar que derrubou Dilma Rousseff e enfiou goela abaixo dos brasileiros o desastroso governo Michel Temer.

As lideranças católicas e operárias escreveram a história do Brasil após o fim da ditadura militar. Mas estes dois segmentos sociais perderam a guerra midiática. Comparadas à imensa e poderosa Rede Record controlada pelos donos da Universal do Reino de Deus, a rede de TV dos católicos é modesta e a TVT dos operários é minúscula.

Leia mais »

Média: 4.7 (12 votos)

Eu, nós e todo o mundo, por Gustavo Gollo

Em menos de 5 anos, os Estados Unidos já terão degringolado, a poeira já terá baixado e a economia chinesa terá mais que o dobro do tamanho da americana. A mudança será drástica. Mas, o que mudará para nós?

Eu, nós e todo o mundo, por Gustavo Gollo

Tudo, tudo mudará. Passaremos a ver o mundo com outros olhos; veremos tudo sob outros ângulos.

A crise será estrondosa, mais sofrida aqui que lá; tragédia para os mais pobres. Mas nossas crenças mudarão. O mundo anda monótono, quero dizer, todo no mesmo tom. Os meios de comunicação nos impingem um único modo de ver o mundo, um mesmo ângulo.

Até um século atrás, em cada região o povo tinha hábitos próprios, diferentes dos de outras; vestiam-se ao seu modo, comiam suas próprias comidas e falavam com sotaque local. Hoje, no mundo inteiro, todos têm a mesma cara, os mesmos desejos, as mesmas crenças, estamos muito homogêneos, quase completamente. Poucos povos conseguem resistir à fortíssima imposição cultural de todos os valores. Entre esses, os chineses se mantêm a relativa distância da sopa comum, da massa homogênea que compartilha os valores difundidos diariamente pela TV. O contraste entre tais valores nos parecerá chocante, desacostumados que estamos com as diferenças.

Leia mais »

Média: 3.5 (15 votos)

A estratégia de Marina fortalece Bolsonaro, por Guilherme Scalzilli

A estratégia de Marina fortalece Bolsonaro

por Guilherme Scalzilli

Ganha ressonância nos círculos marinistas a narrativa de que a candidatura Lula pode levar à vitória de Jair Bolsonaro em 2018. O ódio ao petista incentivaria a polarização do cenário e culminaria num inevitável triunfo da extrema direita no segundo turno.

Por enquanto é apenas propaganda eleitoral de Marina Silva, ou melhor, um teste visando aprumar seu discurso de campanha. Para deixar a esfera do pensamento desejoso e alcançar status de hipótese razoável, seria necessário avaliar duas premissas básicas: a existência de segundo turno e as chances reais de Bolsonaro. Leia mais »

Média: 4 (12 votos)

Corrupção e castidade, por Fabian Bosch

Corrupção e castidade, por Fabian Bosch

Comentário ao post “Nassif: A ignorância econômica da Lava Jato"

O dinheiro da corrupção volta para a economia, irriga a economia,..."

Esta frase que recorto, bem simples, ilumina a distinção entre moralismo e moralidade administrativa. De fato, o que ocorre são dois tipos básicos de fluxos financeiros, de percursos do dinheiro arrecadado do público pelo Estado. Há o fluxo 'padrão', que corresponde ao contabilizado (ao que pode ser contabilizado), e outros que não o são ou não podem sê-lo.

O que legitima a tributação é, primariamente, a prestação de serviços públicos. A máquina custosa do Estado teria esta justificativa,  - os serviços públicos, lá dos domínios do Direito Administrativo. A Escola Francesa apóia o Estado na prestação de serviços.

Leia mais »

Média: 5 (3 votos)

A ingenuidade, os estilingues e os canhões, por Carlos Motta

A ingenuidade, os estilingues e os canhões

por Carlos Motta

A ingenuidade de algumas pessoas chega a ser comovente.

Elas pensam e agem como se o mundo fosse habitado por anjos e não seres humanos, que, como se sabe, são tão cheios de defeitos e maldade como vazios de virtudes e bondade.

O caso do Brasil é emblemático.

Não é novidade para ninguém que uma elite perversa, ignorante, escravagista e racista, uma oligarquia incapaz de qualquer gesto de humanidade, manda no país desde sempre, e nunca, sob hipótese nenhuma, vai permitir que os sobre os seus imensos privilégios paire sequer uma minúscula nuvem de contestação.

Leia mais »

Imagens

Média: 4.6 (11 votos)

Os Brasis: esfinge sem enigmas, por Arkx

Os Brasis: esfinge sem enigmas, por Arkx

nunca houve neste país nenhuma Direita unida. a luta de classes é também uma luta entre frações de classe. a cleptocracia brasileira não hesitou em demolir as empreiteiras e tentar conduzir a JBS ao abatedouro. o Almte. Othon e o programa nuclear estão encarcerados, sem nenhuma manifestação do Clube Militar ou qualquer vôo rasante de jatos despedaçando vidraças do STF.

a indústria naval jaz encalhada, enferrujando. enquanto Aécio dá seguimento a sua carreira elogiável, Cabral em Bangu admite ter exagerado. cadeia produtiva de óleo e gás desarticulada, desindustrialização, queda no consumo arrasando com o mercado interno, setor de serviços insolvente, recessão, estagnação, deflação, ainda assim nenhuma reação coletiva empresarial. na guerra de famiglias, as grandes empresas de mídia começam também a se devorar;

Leia mais »

Média: 2.6 (16 votos)

Sobre os prodígios em Roma e no Brasil, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Foto AFP

Sobre os prodígios em Roma e no Brasil

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Por volta de 2001 resolvi ler e fazer anotações sobre a obra Abe Urbe Condita Libri, Tito Lívio, que havia comprado alguns anos antes. Sempre que algo me chama a atenção retorno àquela monumento da historiografia antiga. Foi o que ocorreu hoje, quando vi o vídeo de uma cabra que nasceu com um olho só na India. Imediatamente lembrei-me dos prodígios relatados pelo escritor romano.

Ao longo de sua obra Tito Lívio narra vários prodígios (chuvas de terra, de carne e até de sangue, nascimentos de animais e crianças deformadas, fenômenos luminosos estranhos, estátuas que choram, ilhas que nascem, epidemias desconhecidas, fantasmas que aparecem vestidos de branco, altares que levitam,  raios que atingem templos, muralhas e monumentos públicos, etc…) de maneira burocrática. Muitas vezes ele credita os prodígios à credulidade popular. Mas ao final de sua obra ele faz uma curiosa preleção sobre seu trabalho sobre os registros destes episódios:

Leia mais »
Média: 5 (4 votos)

Os Muros, por Fernando Horta

Os Muros, por Fernando Horta

A humanidade, de tempos em tempos, é acometida por um medo irracional de seu semelhante. Desde as muralhas construídas nas primeiras Cidades-Estado da Mesopotâmia, passando pela Muralha da China, pela Muralha de Adriano, o Muro de Berlim e chegando aos atuais muros da Cisjordânia, de Belfast, e a tentativa feita por Trump, na fronteira dos EUA e México. Existem inúmeros outros, com certeza. Em todos os continentes, em todas as culturas, em todos os tempos. Na prática, os muros sempre serviram para proteger algo que algumas pessoas julgavam valioso, de quem era julgado desprezível ou dispensável. Desde razões religiosas, econômicas e até, mais recentemente, culturais são invocadas para consecução material do nosso ódio ao outro: o muro.

Temos inúmeros muros no Brasil. Qualquer condomínio fechado, ou casa com cerca elétrica, é uma reprodução em miniatura deste ódio atemporal que cultivamos. Mas, como a História mostra que os meios mais baratos de contenção não são os físicos, existem muros, de palavras, de valores e até de vazios. Brasília é um bom exemplo. Quem conhece sua urbanística atual percebe que imensos espaços vazios afastam as populações mais pobres dos núcleos ricos ou de onde se exerce poder. Portanto, o muro pode ser de concreto, de pedra ou de vazios. Continuam sendo muros, cujo objetivo é separar e evitar que aqueles que estão fora, entrem.

Leia mais »

Média: 4.4 (14 votos)