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Não-ficção

Lista de Livros: A Sociedade do Espetáculo (Parte III) – Guy Debord

Seleção de Doney

Lista de Livros: A Sociedade do Espetáculo (Parte III) – Guy Debord

Editora: Contraponto

ISBN: 978-85-8591-017-4

Tradução: Estela dos Santos Abreu

Opinião: excelente

Páginas: 240

“A mercadoria já não pode ser criticada por ninguém: nem enquanto sistema geral, nem mesmo como essa embalagem determinada que terá sido conveniente aos empresários pôr nesse momento no mercado. Em todo o lado onde reina o espetáculo, as únicas forças organizadas são aquelas que querem o espetáculo. Portanto, nenhuma pode ser inimiga do que existe, nem infringir a omertá que diz respeito a tudo. Acabou-se com esta inquietante concepção que dominou durante mais de duzentos anos, segundo a qual uma sociedade podia ser criticável e transformável, reformada ou revolucionada. E isto não foi obtido pelo aparecimento de argumentos novos, mas muito simplesmente porque os argumentos se tornaram inúteis. Perante este resultado medir-se-á, em vez da felicidade geral, a força terrível das redes da tirania.

Jamais a censura foi tão perfeita. Jamais a opinião daqueles a quem se faz crer ainda, em certos países, que são cidadãos livres, foi tão pouco autorizada a tornar-se conhecida, cada vez que se trata duma escolha que afetará a sua vida real. Jamais foi permitido mentir-lhes com uma tão perfeita ausência de consequência. O espectador é suposto ignorar tudo, não merecer nada. Quem olha sempre, para saber a continuação, jamais agirá: e tal deve ser o espectador. Tudo aquilo que nunca é sancionado é verdadeiramente permitido. É pois arcaico falar de escândalo. Atribui-se a um homem de Estado italiano de primeiro plano, tendo exercido funções simultaneamente no ministério e no governo paralelo chamado P.2, Potere due, uma divisa que resume profundamente o período em que entrou o mundo inteiro, um pouco depois da Itália e dos Estados Unidos: “Havia escândalos, mas já não há”.

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Lista de Livros: A Sociedade do Espetáculo (Parte II) – Guy Debord

Seleção de Doney

Lista de Livros: A Sociedade do Espetáculo (Parte II) – Guy Debord

Editora: Contraponto

ISBN: 978-85-8591-017-4

Tradução: Estela dos Santos Abreu

Opinião: excelente

Páginas: 240

     “O raciocínio sobre a história é inseparavelmente raciocínio sobre o poder.”

*

     “Assim, a burguesia fez conhecer e impôs à sociedade um tempo histórico irreversível, mas recusa-lhe a utilização. “Houve história, mas já não há mais”, porque a classe dos possuidores da economia, que não deve romper com a história econômica, deve recalcar assim como uma ameaça imediata qualquer outro emprego irreversível do tempo. A classe dominante, feita de especialistas da possessão das coisas, que por isso são eles próprios uma possessão das coisas, deve ligar a sua sorte à manutenção desta história reificada, à permanência de uma nova imobilidade na história. Pela primeira vez o trabalhador, na base da sociedade, não é materialmente estranho à história, porque é agora pela sua base que a sociedade se move irreversivelmente. Na reivindicação de viver o tempo histórico que ele faz, o proletariado encontra o simples centro inesquecível do seu projeto revolucionário; e cada uma das tentativas, até aqui geradas, de execução deste projeto marca um ponto de partida possível da nova vida histórica.”

*

     “O tempo pseudocíclico consumível é o tempo espetacular, ao mesmo tempo como tempo de consumo das imagens, no sentido restrito, e como imagem do consumo do tempo em toda a sua extensão. O tempo do consumo das imagens, média de todas as mercadorias, é inseparavelmente o campo onde plenamente atuam os instrumentos do espetáculo e a finalidade que estes apresentam globalmente, como lugar e como figura central de todos os consumos particulares: sabe-se que os ganhos de tempo constantemente procurados pela sociedade moderna – quer se trate da velocidade dos transportes ou da utilização de sopas em pacotes – se traduzem positivamente para a população dos Estados Unidos neste fato: de que só a contemplação da televisão a ocupa em média três a seis horas por dia. A imagem social do consumo do tempo, por seu lado, é exclusivamente dominada pelos momentos de ócio e de férias, momentos representados à distância e desejáveis, por postulado, como toda a mercadoria espetacular. Esta mercadoria é aqui explicitamente dada como o momento da vida real de que se trata esperar o regresso cíclico. Mas mesmo nestes momentos destinados à vida, é ainda o espetáculo que se dá a ver e a reproduzir, atingindo um grau mais intenso. O que foi representado como vida real, revela-se simplesmente como a vida mais realmente espetacular.

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Tropicalismo e desenvolvimento se mesclam em nova obra de Rafael Zincone

Imagem: Divulgação 

Jornal GGN -  Trazendo à tona o movimento que sacudiu o cenário musical nos anos 60, o  Tropicalismo, Rafael Zincone apresenta “Aqui é o fim do mundo – Tropicália e desenvolvimento dependente no Brasil”. O livro será lançado no dia 16 de agosto, quarta-feira, no Gabinete de Leitura Guilherme Araújo - antiga casa do primeiro produtor musical de Caetano Veloso e de outros músicos que fizeram parte do coletivo -, em Ipanema, Rio de Janeiro. O encontro começa às 19h.

“Aqui é o fim do mundo” surge a partir do questionamento: até que ponto é possível fazer crítica social por dentro da grande indústria? É em busca de esclarecer essa questão, que o autor se desdobra entre os capítulos históricos acerca do Tropicalismo, destacando as controvérsias políticas do movimento musical e do cenário brasileiro em que se criou.

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Lista de Livros: A Sociedade do Espetáculo (Parte I) – Guy Debord

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Lista de Livros: A Sociedade do Espetáculo (Parte I) – Guy Debord

Editora: Contraponto

ISBN: 978-85-8591-017-4

Tradução: Estela dos Santos Abreu

Opinião: excelente

Páginas: 240

     “É sabida a forte tendência dos homens para repetir inutilmente os fragmentos simplificados das teorias revolucionárias antigas, cuja usura lhes é escondida pelo simples fato de que não tentam aplicá-las a qualquer luta efetiva, para transformar as condições em que se encontram verdadeiramente; de tal forma que compreendem pouco melhor como estas teorias puderam, com sortes diversas, ser determinantes nos conflitos doutros tempos. Apesar disto, não oferece dúvida para quem examina friamente a questão, que aqueles que querem abalar realmente uma sociedade estabelecida devem formular uma teoria que explique fundamentalmente esta sociedade; ou pelo menos que tenha todo o ar de dar dela uma explicação satisfatória. Assim que esta teoria é um pouco divulgada, na condição de que o seja nos afrontamentos que perturbam a tranquilidade pública, e mesmo antes dela chegar a ser exatamente compreendida, o descontentamento por toda a parte em suspenso será agravado e atiçado, pelo simples conhecimento vago da existência de uma condenação teórica da ordem das coisas. E depois, é começando a dirigir com cólera a guerra da liberdade, que todos os proletários podem tornar-se estrafegas.”

*

     “Os terroristas se movem às vezes pelo desejo de fazer com que se fale deles.”

*

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Lista de Livros: Crítica da Razão Prática (Parte II) – Immanuel Kant

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Lista de Livros: Crítica da Razão Prática (Parte II) – Immanuel Kant

Editora: Brasil (Versão digitalizada da obra de 1959)

Tradução e prefácio: Afonso Bertagnoli

Opinião: bom

Páginas: 248

     “Enquanto a virtude e a felicidade constituem conjuntamente a posse do sumo bem em uma pessoa e enquanto, além disso, estando a felicidade repartida exatamente, em proporção idêntica, à moralidade (como valor da pessoa e da sua dignidade de ser feliz), constituem ambas o sumo bem de um mundo possível, isto significa o mais completo e acabado bem; neste, todavia, a virtude é sempre, como condição, o bem mais elevado, porque não tem sobre si nenhuma outra condição, enquanto a felicidade apresenta alguma coisa que é agradável para aquele que possui, mas sem ser por si mesma absolutamente boa sob todos os aspectos, dado que supõe, constantemente, de acordo com a lei, a conduta moral como condição. (...)

     O sumo bem é para nós prático; isto é, devemos realizá-lo mediante a nossa vontade, concebendo nele a virtude e a felicidade necessariamente ligados, de modo que não é possível, para uma razão pura prática, admitir aquela e não admitir esta.”

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Lista de Livros: Crítica da Razão Prática (Parte I) – Immanuel Kant

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Lista de Livros: Crítica da Razão Prática (Parte I) – Immanuel Kant

Editora: Brasil (Versão digitalizada)

Tradução e prefácio: Afonso Bertagnoli

Opinião: bom

Páginas: 248

     “Vida é a faculdade que possui um ser de agir segunda as leis da faculdade de desejar. A faculdade de desejar é a faculdade desse mesmo ser, de ser, por meio de suas representações, causa da realidade dos objetos dessas representações. Prazer é a representação da coincidência do objeto ou da ação com as condições subjetivas da vida, isto é, com a faculdade da causalidade de uma representação em consideração da realidade do seu objeto (ou da determinação das forças do sujeito para a ação de produzi-lo).”

*

     “Princípios práticos são proposições que encerram uma determinação universal da vontade, subordinando-se a essa determinação diversas regras práticas. São subjetivos, ou máximas, quando a condição é considerada pelo sujeito como verdadeira só para a sua vontade; são, por outro lado, objetivos ou leis práticas quando a condição é conhecida como objetiva, isto é, válida para a vontade de todo ser natural.

     No conhecimento prático, isto é, aquele que só tem que tratar dos fundamentos da determinação da vontade, os princípios que alguém formula em si mesmo nem por isso constituem leis a que inevitavelmente se veja submetido, porque a razão na prática se ocupa do sujeito, ou seja da faculdade de desejar, segundo cuja constituição especial pode a regra referir-se por formas bem diversas. A regra prática é sempre um produto da razão, porque prescreve a ação, qual meio para o efeito, considerado como intenção.

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Lista de Livros: Discurso de metafísica e outros textos – Gottfried Wilhelm Leibniz

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Lista de Livros: Discurso de metafísica e outros textos – Gottfried Wilhelm Leibniz

Editora: Martins Fontes

ISBN: 978-85-3361-978-4

Apresentação e notas: Tessa Moura Lacerda

Tradução: Marilena Chauí e Alexandre da Cruz Bonilha

Opinião: Discurso de metafísica (bom) / Os Princípios da Filosofia ou A Monadologia (regular) / Princípios da Natureza e da Graça Fundados na Razão (regular)

Páginas: 164

      “I. Da perfeição divina e de que Deus faz tudo da maneira mais desejável.

     A noção mais aceita e mais significativa que possuímos de Deus exprime-se muito bem nestes termos: Deus é um ser absolutamente perfeito. Não se tem considerado, porém, devidamente, suas consequências e, para aprofundá-las mais, convém notar que há na natureza várias perfeições muito diferentes, possuindo-as Deus todas reunidas e que cada uma lhe pertence no grau supremo. É preciso também conhecer o que é a perfeição. Eis uma marca bem segura dela, a saber: formas ou naturezas insuscetíveis do último grau não são perfeições, como, por exemplo, a natureza do número ou da figura; pois o número maior de todos (ou melhor, o número dos números), bem como a maior de todas as figuras, implicam contradição; mas a máxima ciência e a onipotência não encerram qualquer impossibilidade. Por conseguinte, o poder e a ciência são perfeições, e enquanto pertencem a Deus não têm limites. Donde se segue que Deus, possuindo suprema e infinita sabedoria, age da maneira mais perfeita, não só em sentido metafísico, mas também moralmente falando, podendo, relativamente a nós, dizer-se que, quanto mais estivermos esclarecidos e informados sobre as obras de Deus, tanto mais dispostos estaremos a achá-las excelentes e inteiramente satisfatórias em tudo o que possamos desejar.

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Nesta sexta, intelectuais lançam livro sobre o rumo das esquerdas

Imagem: Divulgação

Jornal GGN - A fim de esclarecer as diversas questões que envolvem a esquerda brasileira, Aldo Fornazieri e Carlos Muanis reuniram textos e entrevistas de diferentes personalidades em “A crise das esquerdas”. A obra, que chega ao público pela Civilização Brasileira,  será lançada nesta sexta (23), na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo.Ontem, Tarso Genro participou de um debate sobre a obra na Livraria Leonardo da Vinci, no Rio de Janeiro.

Fazem parte do livro intelectuais e ativistas como Cícero Araújo, Guilherme Boulos, Renato Janine Ribeiro, Ruy Fausto, Sérgio Fausto, Tarso Genro, Aldo Fornazieri, Carlos Muanis, Carla Regina Mota Alonso Diéguez, Carlos Melo, Moisés Marques e Rodrigo Estramanho de Almeida. A orelha da obra ficou por conta do cientista político Leonardo Avritzer. 

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Soninha dá seu recado de braços abertos

Jornal GGN – Soninha Francine fala tudo. Sobre Doria, sobre o namorado que era morador de rua, sobre o De Braços Abertos, sobre o Cidade Linda, sobre Serra e Lula, dá sua versão sobre a saída da Prefeitura de São Paulo. Vai falando para Morris Kachani, do blog Inconsciente Coletivo, no Estadão. Aborda a questão dos 100 dias da gestão Doria e tece comentários sobre  os governos do PT e PSDB. Leia a entrevista a seguir.

do blog Inconsciente Coletivo / Estadão

As paixões de Soninha

Por Morris Kachani

Ao lado de seu parceiro, Paulo Sergio Rodrigues Martins, que conheceu em uma ação social quando ele ainda era morador de rua, Soninha fala sobre defeitos e virtudes do atual prefeito, que a demitiu após pouco mais de 100 dias de trabalho

João Doria, o prefeito de São Paulo, montou um bom time de secretários mas nenhum deles consegue despachar a sós com o chefe, pois ele só quer saber de soluções imediatas, que costuma cobrar em reuniões coletivas. O prefeito tem aversão a problemas e também se impacienta com assuntos de Direitos Humanos. Na Cracolândia, montou uma operação “destrambelhada”. É, enfim, um gestor obsessivo e com força de vontade, mas que peca pelo excesso de auto-confiança, nesse sentido se parecendo até com Trump.

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Lista de Livros: Discurso Sobre a Origem da Desigualdade entre os Homens (Parte I) – Jean-Jacques Rousseau

Seleção de Doney

Lista de Livros: Discurso Sobre a Origem da Desigualdade entre os Homens (Parte I) – Jean-Jacques Rousseau

Editora: Atena

Tradução: Maria Lacerda de Moura

Opinião: muito bom

Páginas: 202

     “Eu quisera viver e morrer livre, isto é, de tal modo submetido às leis que nem eu nem ninguém pudesse sacudir o honroso jugo, esse jugo salutar e doce, que as cabeças mais altivas carregam tanto mais docilmente quanto são feitas para não carregar nenhum outro.

     Eu quisera, pois, que ninguém, no Estado, pudesse dizer-se acima da lei, e que ninguém, fora dele, pudesse impor alguma que o Estado fosse obrigado a reconhecer; de fato, qualquer que possa ser a constituição de um governo, se neste se encontra um só homem que não esteja submetido à lei, todos os outros ficam necessariamente à discrição deste último: e, havendo um chefe nacional e outro estrangeiro, qualquer que seja a partilha da autoridade que possam fazer, é impossível que ambos sejam bem obedecidos e o Estado bem governado.

     Eu não quisera habitar uma república de nova instituição, por muito boas que fossem as leis que pudesse ter, de medo de que, constituído o governo de outra maneira, talvez, que não a exigida pelo momento, não convindo aos novos cidadãos, ou os cidadãos ao novo governo, ficasse o Estado sujeito a ser abalado e destruído quase desde o seu nascimento; porque a liberdade é como esses alimentos sólidos e suculentos, ou esses vinhos generosos, próprios para nutrir e fortificar os temperamentos robustos a eles habituados, mas que inutilizam, arruínam, embriagam os fracos e delicados, que a ele não estão afeitos. Os povos, uma vez acostumados a senhores, não podem mais passar sem eles. Se tentam sacudir o jugo, afastam-se tanto mais da liberdade quanto, tomando por ela uma licença desenfreada que lhe é oposta, suas revoluções os entregam quase sempre a sedutores que só fazem agravar as suas cadeias.”

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Um pouco da história de Poços e de Walther Moreira Salles na Flipoços

Aqui o vídeo da palestra que dei na Flipoços em cima da biografia de Walther Moreira Salles, que deverá sair em breve.

Algumas correções para lapsos de memória.

A cantora brasileira que encantou Acapulco foi Leonora Amar, que casou (ou foi amante) do presidente mexicano Miguel Aleman. Vive ou terminou a vida como incorporadora imobiliária no Rio de Janeiro.

O segundo marido da escritora Adalgisa Nery foi Lourival Fontes, todo-poderoso chefão do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda).

O prefeito de Poços, que se casou com a cantora Roxane, foi Justino Ribeiro, e não Justino Alves Bastos - o general que deflagrou o golpe de 1964.

O nome final da amante de Getúlio foi Aimée de Heeren - depois de se casar com o herdeiro da uma loja de departamentos dos Estados Unidos.

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Lista de Livros: Ensaio Acerca do Entendimento Humano (Os Pensadores) – John Locke

Seleção de Doney

Lista de Livros: Ensaio Acerca do Entendimento Humano (Os Pensadores) – John Locke

Editora: Nova Cultural

ISBN: 85-13-00906-7

Consultoria: Carlos Estevam Martins e João Paulo Monteiro

Tradução: Anoar Aiex

Opinião: bom

Páginas: 318

     “Certamente, o mundo estaria muito mais adiantado se o esforço de homens engenhosos e perspicazes não estivesse tão embaraçado pela erudição e pelo uso frívolo de termos desconhecidos, afetados e ininteligíveis, introduzido nas ciências, e fazendo disso uma arte a tal ponto de a filosofia, que nada mais é do que o verdadeiro conhecimento das coisas, tornar-se imprópria ou incapaz de ser apreciada pela sociedade mais refinada e nas conversas eruditas. Formas vagas e sem significado de falar, e abuso da linguagem, têm por muito tempo passado por mistérios da ciência; palavras difíceis e mal empregadas, com pouco ou nenhum sentido, têm, por prescrição, tal direito que são confundidas com o pensamento profundo e o cume da especulação, sendo difícil persuadir não os que falam como os que os ouvem que são apenas abrigos da ignorância e obstáculos ao verdadeiro conhecimento. Suponho que interromper o santuário da vaidade e da ignorância será de alguma utilidade para o entendimento humano, embora poucos estejam aptos a pensar que enganam ou são enganados pelo uso das palavras, ou que a linguagem da seita a que pertencem tem qualquer defeito que deva ser examinado e corrigido.”

*

     “Como as regras morais necessitam de prova, elas não são inatas. Outra razão que me leva a duvidar de quaisquer princípios práticos inatos decorre do fato de pensar que nenhuma regra moral pode ser proposta sem que uma pessoa deva justamente indagar a sua razão: o que seria perfeitamente ridículo e absurdo se ela fosse inata, ou sequer evidente por si mesma, coisa que todo princípio inato deve necessariamente ser, sem precisar de qualquer prova para apurar sua verdade, nem necessitar de qualquer razão para obter sua aprovação.”

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Os Pensadores, o retorno

Os Pensadores (atualizado)

por Gilberto Cruvinel

“Os Pensadores” é uma coleção de livros que reúne as obras dos filósofos ocidentais desde os pré-socráticos aos pós-modernos. O interessante desta coleção é que ela reúne em cada exemplar um pequeno apanhado sobre a biografia do autor em questão e um, dois ou três livros deste mesmo autor, normalmente os títulos mais conhecidos.

Publicada originalmente pela editora Abril Cultural, entre os anos de 1973/1975, era composta de 52 volumes.

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Lista de Livros: Benedictus de Spinoza – Tratado Político & Correspondência

Seleção de Doney

Lista de Livros: Benedictus de Spinoza – Tratado Político & Correspondência (Os Pensadores)

Editora: Nova Cultura

Tradução: Manuel de Castro (Tratado Político)

Tradução e notas: Marilena Chauí (Correspondência)

Opinião: Bom

Páginas: 92

Tratado Político

     “Seguindo os ensinamentos da religião, cada um deve amar o próximo como a si mesmo, isto é, defender como seu próprio o direito de outrem; mas nós mostramos já como esta persuasão pouco poder tem sobre as emoções. Triunfa, na verdade, quando se está perante a morte, quer dizer, a doença venceu as paixões e o homem jaz inerte, ou ainda nos templos onde os homens não têm interesses a defender; mas não possui eficácia perante os tribunais ou na corte, onde seria mais necessário que a tivesse.”

*

     “Não podemos duvidar que, se estivesse no nosso poder tanto viver segundo as prescrições da Razão quanto ser conduzidos pelo desejo cego, todos viveriam sob a conduta da Razão e segundo regras sabiamente instituídas; ora, nada disto se dá, pois cada um, pelo contrário, obedece à atração do prazer que procura. Não é verdade que esta dificuldade seja eliminada pelos teólogos, quando declaram que a causa desta incapacidade da natureza humana é o vício ou o pecado que têm a sua origem na queda do primeiro homem. Se o primeiro homem tivesse tido o poder de permanecer reto tanto quanto o de tombar, se estivesse na posse de si mesmo e de uma natureza ainda não viciada, como poderia ter acontecido que, possuindo saber e prudência, tenha caído? Dir-se-á que foi ludibriado pelo diabo? Mas, então, quem ludibriou o próprio diabo? Quem, pergunto eu, pôde fazer com que um ser preponderante sobre todas as outras criaturas tenha sido suficientemente louco para querer ser maior que Deus? Este ser, que tinha uma alma sã, não se esforçaria por conservar o seu ser tal como o possuía? Como pôde acontecer, além disso, que o primeiro homem, na posse de si mesmo e senhor da sua vontade, se tenha deixado seduzir e ludibriar? Se tinha o poder de usar retamente da Razão, não poderia ser ludibriado porque, tendo poder sobre si mesmo, se esforçaria necessariamente por conservar o seu ser e a sua alma sãos. Ora, supõe-se que tinha esse poder. Portanto, conservou forçosamente a alma sã e não pôde ser ludibriado. Porém, a sua história mostra que não é assim. É preciso reconhecer, por consequência, que não estava no poder do primeiro homem usar retamente da Razão, mas que ele estava, como nós o estamos, submetido às paixões.”

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