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Literatura

Dos males que a modernidade líquida provoca, por Sebastiao Nunes

Minha vida sem meu celular ou: Dos males que a modernidade líquida provoca

Por Sebastiao Nunes

O cara encostou o berro na minha cara e disse:

        – O celular ou tá morto!

        – Tô morto – respondi pro cara, abrindo a camisa e exibindo o peito magro.

        Sem nem olhar pra minha cara, o cara mandou uma porrada na minha cabeça com o cabo do berro.

        Caí vendo estrelinhas, como mandavam os quadrinhos antigos. Estrebuchei, como relatam os BO da vida. Cumprido o ritual da babaquice, apaguei.

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Catarina e Jarirí - uma paixão sobre-humana, por Cafezá

por Cafezá

Indaí, Cascatim i Donzela saíru córrenu, maisi adispois di uma meia-hóra, Donzela ficô cansada i dimínuiu u rítimu da currida. Donzela tava boa, maisi nem tanto, Cascatim curria muitu. Entoncis, eile dimínuiu u rítimo i ficô pareado cum Donzela. Cuandu eiles chegaru na casa di sô Jair i Vardí, a porta tava abérta i eiles intraru cum tudo, fazendu algazarra i cheranu inté as paredi. Sô Jair, entoncis, falô pá Vardí:

- Bem du jeito qui ucê previu, Vardí. Ucê disse qui Cascatim tava cheganu i abriu a pórta prele num arranhá éila. É uilsso qui ieu chamo de boa intuição. Ólha ele aí, veio acumpanhadu déssa veiz. Trouxe uma cachorra mui bunita, qui déve di sê chegada deile. Agóra eiles dois pararu in frenti du fógão, sentiru u cheiru du frango cuzido. Ieu vo dá um poco preles.

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Lista de Livros: Celso Furtado - Brasil, a construção interrompida (Parte II)

Seleção de Doney

Lista de Livros: Celso Furtado - Brasil, a construção interrompida (Parte II)

Editora: Paz e Terra

ISBN: 978-85-2190-500-4

Páginas: 88

Opinião: muito bom

     “A corrente do pensamento econômico que domina os grandes centros acadêmicos ignora a especificidade do subdesenvolvimento, pretendendo englobar todas as situações históricas de aumento persistente de produtividade em um só modelo explicativo. É a obsessão do monoeconomics a que se referiu Hirschman, o “falso universalismo” de que já falava Prebisch em 1949. Segundo essa doutrina, existe um só modelo de industrialização nas economias de mercado, o qual se desdobra em fases temporais. Mas a realidade é cabeçuda e nem sempre é possível escamoteá-la.

     Os dados estatísticos não deixam dúvida de que a tendência à concentração da renda persiste em todas as fases da industrialização, quando esta foi precedida por um período de crescimento apoiado na exportação de produtos primários, a qual engendra a modernização. E com frequência tal tendência se acentua quando o crescimento econômico se intensifica. Não é de surpreender, portanto, que a especificidade do subdesenvolvimento se manifeste conceitualmente na “teoria da pobreza”. Essa teoria estatui que a massa de pobreza existente em determinada economia reflete a distribuição de ativos no momento em que tem início o processo de crescimento da produtividade e também a natureza das instituições que regulam a acumulação dos ativos. Simplificando: ali onde a propriedade da terra esta concentrada e o crédito é monopolizado pelos proprietários, uma maioria de despossuídos não participará dos benefícios do crescimento, acarretando essa concentração da renda. Se esses dados estruturais não se modificam, o aumento de produtividade engendrará necessariamente uma crescente dicotomia social. O único ativo de que a população pobre dispõe é sua força de trabalho, e, sendo esta um bem de oferta elástica, o seu preço será fixado no mercado em função de seu custo de reprodução, perpetuando-se a miséria.

     Essas ideias foram desenvolvidas por economistas ligados ao Banco Mundial para serem utilizadas pelos técnicos dessa instituição que dão assistência aos governos de países subdesenvolvidos. Esses autores reconhecem que, para romper o círculo fechado da pobreza, faz-se necessária uma “estratégia” de desenvolvimento, vale dizer, uma ação deliberada do governo, capaz de modificar a “distribuição primária da renda” — apropriação do produto antes dos impostos e transferências. A quantidade de ativos em mãos dos pobres pode ser aumentada mediante redistribuição do estoque existente (reforma agrária), ou mediante modificação do quadro institucional, a fim de que o fluxo de novos ativos também beneficie os pobres (reforma do sistema de crédito, por exemplo). A segunda estratégia, preconizada por Hollis Chenery, evita um choque maior com interesses criados. Irma Adelman recomenda a combinação das duas estratégias, mas adverte com pertinência que a reforma agrária deve ser feita antes da implantação da política visando a incrementar a produtividade agrícola, e que substanciais investimentos em educação devem preceder a política de incentivo à industrialização. É evidente que Adelman se inspirou nas experiências de Taiwan e da Coréia do Sul, sem contudo dar a devida importância às condições históricas que conduziram esses dois países pelos caminhos que trilharam, em particular o grande desafio representado pela vizinhança de outro estilo de desenvolvimento privilegiando o social.”

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a vila de ouro preto, por romério rômulo

 
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Serão os portugueses totalmente responsáveis pelo nosso fracasso como nação?, por Sebastião Nunes

Serão os portugueses totalmente responsáveis pelo nosso fracasso como nação?

por Sebastião Nunes

A atriz norte-americana Carrie Fisher morreu quatro dias depois de sofrer ataque cardíaco num voo entre Londres e Los Angeles. Ela voltava de uma turnê promocional de seu oitavo livro. Misto de atriz e escritora, filha da também famosa Debbie Reynolds, integrava a rede midiática dos EUA que transforma filmes em livros e vice-versa, além de outros produtos de venda garantida. Resultado: milhões de dólares em caixa.

        O primeiro texto que li de Gabriel García Márquez foi um conto em inglês no New York Times Book Review anterior a 1978, sendo que ele só ganhou o Prêmio Nobel em 1982, pelo menos quatro anos depois de se tornar conhecido em inglês. Digamos que já pavimentava sua estrada rumo a Estocolmo.

        Este ano foi a vez de Bob Dylan receber sem ir buscar – esnobando um pouco a ilustre academia sueca –, premiação que seria motivo de polêmicas intermináveis sobre os limites entre poesia e canção popular, caso houvesse ele nascido, por exemplo, num país periférico como o Brasil. Ou profundamente livresco, como a França.

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Lista de Livros: Brasil, a construção interrompida (Parte I), de Celso Furtado

Seleção de Doney

Lista de Livros: Brasil, a construção interrompida (Parte I), de Celso Furtado

Editora: Paz e Terra

ISBN: 978-85-2190-500-4

Páginas: 88

Opinião: muito bom

          “O que permitia aos brasileiros conviver com as gritantes injustiças sociais era o intenso dinamismo da economia no período de intenso crescimento*. Muitos observadores (inseridos nos segmentos sociais privilegiados, evidentemente) descobriam nesse dinamismo uma fonte de legitimidade para um sistema de poder que gerava tantas injustiças. Outros (entre os quais me incluo) consideravam que o preço social que estava sendo pago pelo desenvolvimento era exorbitantemente elevado, e sua razão de ser estava na obstinada resistência da aliança de interesses oligárquicos à introdução de reformas modernizadoras das estruturas. Mas, pelo menos sobre um ponto, havia consenso: interromper o crescimento econômico não contribuiria senão para agravar os problemas sociais.”

*: em décadas passadas.

*

     “Aprendemos com a experiência dos anos 80 — com sua falsa prosperidade fundada na degradação sem precedentes dos termos de intercâmbio dos países exportadores de produtos primários, numa exorbitante elevação das taxas de juros, que fez crescer desmedidamente as dívidas dos países do Terceiro Mundo, e em vastas transferências de recursos financeiros para os Estados Unidos — que a transição para uma ordem econômica multipolar não se realizará sem acidentes.

     Com efeito, a tutela norte-americana, legitimada pela guerra fria — exercício de política internacional sem qualquer fundamento racional a que se prestou a defunta União Soviética —, entrou em franco declínio sem que se haja avançado na montagem de um quadro institucional que se incline a operar sem demasiados atritos uma multipolaridade de contornos ainda incertos.”

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ato de deus, por romério rômulo

ato de deus

por romério rômulo

 

em cada olho, o fogo e a serpente

em cada mão, um risco permanente

em cada braço, um aço e uma corrente:

 

e tudo transformado em bicho e gente.

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Raduan Nassar e eu ninguém, por Rui Daher

Raduan Nassar e eu ninguém

por Rui Daher

Amigos que gostam de ler e alguns que escrevem sempre colocaram a mão no queixo, em gesto de dúvida, quando eu anunciava “Lavoura Arcaica”, de Raduan Nassar, como o melhor livro, em língua portuguesa, que eu havia lido.

Toda a razão. Trazem com eles um Brasil de grandes escritores. Difícil. Quem vem a este GGN, sabe. Machado, Lima Barreto, J.J Veiga, João do Rio, Rosa, Clarice; na poesia Drummond, Bandeira, Manoel de Barros, Thiago, Coralina. Tantos outros, vocês sabem, tantos outros.

Dos posteriores, sei pouco e ando lendo pouco. O projeto de me aposentar para apenas poder ler e escrever naufragou. O patrimônio formado com o trabalho assalariado foi pelo ralo em avais e fianças dados a bancos e multinacionais químicas para empresa da qual não tinha única ação, apenas o dever ético da ingenuidade e, inclusive, levaram a minha lavoura arcaica de café.

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Quem diria, o crioulo Lima Barreto será banqueteado na FLIP 2017, por Sebastião Nunes

por Sebastião Nunes

Pobre literatura brasileira! É preciso que os autores morram para que mereçam a honra de prato principal nos festejos da classe média. Ganham, estripando a pobre criatura, os editores alvoroçados, os herdeiros abençoados e, favorecendo a gastança multiusuária, a classe média deslumbrada, que não perde festa. Vejamos como se banqueteou recentemente na FLIP, seguindo a lição do primeiro na lista dos comidos, que defendia a deglutição antropofágica.

        Em 2011, subiu à churrasqueira de Paraty o indomável Oswald de Andrade, para júbilo de seus banqueteadores post-mortem. Gordinho, deve ter sido uma delícia.

        Em 2012, foi a vez de Carlos Drummond de Andrade, só osso e pelanca, que nem ao menos atendeu aos cantos das sereias da Academia Brasileira de Letras.

        Em 2013, assaram na brasa a carne-seca do Velho Graça, que bebia aguardente e detestava puxação de saco. Banquete de muxibas enfezadas.

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Lista de Livros: Formação do Brasil Contemporâneo (Parte III) – Caio Prado Jr.

Seleção de Doney

Lista de Livros: Formação do Brasil Contemporâneo (Parte III) – Caio Prado Jr.

Editora: Companhia das Letras

ISBN: 978-85-3591-962-2

Opinião: muito bom

Páginas: 464 

     “O advogado colonial não é o simples profissional de nossos dias; tem a categoria de um alto serventuário da justiça, e é uma parte, um verdadeiro órgão da justiça pública. Vestígio deste passado encontramos ainda nas fórmulas de praxe que os advogados contemporâneos empregam nos seus discursos oficiais.”

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     “Todas estas limitações da autoridade do governador são consequência do sistema geral da administração portuguesa: restrição de poderes, estreito controle, fiscalização opressiva das atividades funcionais. Sistema que não é ditado por um espírito superior de ordem e método, mas reflexo da atividade de desconfiança generalizada que o governo central assume com relação a todos seus agentes, com presunção muito mal disfarçada de desleixo, incapacidade, desonestidade mesmo em todos eles. A confiança com outorga de autonomia, contrabalançadas embora por uma responsabilidade efetiva, é coisa que não penetrou nunca nos processos da administração portuguesa.

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CONCRESIA, a poesia concreta

Enviado por Valéria Rufino Martins

Poesia concreta: um olhar da periferia através das janelas da alma, do apartamento, do osso...
"O concreto é concreto porque é a síntese de múltiplas determinações e, por isso, é a unidade do diverso." Karl Marx

A literatura em tempos digitais

Urariano Mota e Raimundo Carrero falam na TV Pernambuco sobre literatura e novas formas do romance na internet.

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Entrevista de Rui Daher a CartaCapital, Parte 2

Entrevista de Rui Daher a CartaCapital, Parte 2, Dominó de Botequim, por Rodrigo Martins

Esta é uma parte da entrevista que dei a Rodrigo Martins, um dos editores do site de CartaCapital, onde publico artigo semanal sobre agronegócios, sempre reproduzido neste GGN.

Os citados na entrevista me ajudaram muito na realização dessa produção independente, assim como o fizeram Luís Nassif (prefácio), Márcio Alemão (bondosas e fraternas palavras na contracapa), Luiz Fernando Juncal Gomes (capítulos deliciosos sobre botecos) e Manoel Mendes Vieira (sobre o dominó). 

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Lista de Livros: Formação do Brasil Contemporâneo (Parte II), de Caio Prado Jr.

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Lista de Livros: Formação do Brasil Contemporâneo (Parte II) – Caio Prado Jr.

Editora: Companhia das Letras

ISBN: 978-85-3591-962-2

Opinião: muito bom

Páginas: 464 

     “Noutras regiões o sangue indígena prepondera. São em geral as de vida econômica pouco ativa, ou onde a colonização não tomou pé muito acentuado; o índio sobrou assim em estado bastante puro. Quase sempre trata-se de remanescentes de antigas missões. É o caso particularmente do Ceará, Rio Grande do Norte, menos a Paraíba, litoral sul da Bahia (comarca de Ilhéus e capitania de Porto Seguro), Espírito Santo.

      Coisa semelhante, embora com alguma diferença, se passa nos altos sertões do Nordeste. Aí o fundo da população também é todo de sangue indígena. Das numerosas tribos que habitavam esses sertões antes da vinda dos colonizadores, e de que as principais e mais numerosas são as dos cariris, boa parte foi aniquilada. Outra se refugiou no Maranhão ou na Amazônia, onde a floresta oferecia melhor proteção que a rala caatinga do seu habitat de origem. As sobras foram submetidas e aldeadas, e se mestiçaram aos poucos com as outras raças. É ali, aliás, que parece ter sido mais numeroso o cruzamento do índio com o negro. O sertão constituiu sempre, de fato, refúgio para negros e mestiços provindos do litoral: escapos da justiça, que sobre eles pesava mais que sobre as outras categorias da população, ou recalcados pelo regime de vida desfavorável que lhes proporcionam os centros mais ativos e policiados da costa. O sertão oferece a liberdade, o afastamento de uma autoridade incômoda e pesada. Aí a lei é a do mais forte, do mais capaz, e não a de classes favorecidas. Representa por isso uma válvula de escapamento para todos os elementos inadaptáveis ou inadaptados que procuram fugir à vida organizada dos grandes centros de povoamento da colônia. E deles, os mais numerosos são naturalmente os que suportam o maior ônus de tal organização, os que trazem estampados na pele o estigma de uma raça bastarda e oprimida: os negros e seus derivados mais escuros. No sertão, confundidos com a população de origem indígena, num pé de igualdade que as circunstâncias do meio impõem, cruzam-se em larga escala, dando este tipo, o sertanejo, de tão singular definição psicológica e étnica. A infusão do sangue branco não representa nesse complexo senão parcela mínima; e tão diluído que sua contribuição quase desaparece.”

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Dória se inspira em best-sellers sobre manipulação

Como prefeito monta autoimagem usando discurso de “João trabalhador”, mas com ações que deixam escapar sedução pelo poder  

 
Jornal GGN - O prefeito de São Paulo, João Dória (PSDB) está se inspirando em autores de best-sellers sobre poder, manipulação e dissimulação para montar sua autoimagem. Quem identificou isso, a partir dos discursos e ações do político, é o repórter da RBA, Rodrigo Gomes. 
 
No discurso de posse, por exemplo, Dória usou uma frase do escritor estadunidense Robert Greene. “Sejamos ousados, qualquer erro cometido com ousadia é facilmente corrigido com mais ousadia. Todos admiram os corajosos. Ninguém louva os covardes”, do livro 48 Leis do Poder. Greene é autor de outras obras sobre sedução e controle para se manter no poder. Mais recentemente, ao se vestir de gari para o lançamento do programa São Paulo Cidade Linda, o novo prefeito mostrou contradição entre o que disse e o que fez. Ficou cerca de uma hora conversando com repórteres, cercado de câmeras, afirmando que a sua aparição como gari era uma demonstração de "simplicidade" e "humildade". Em contrapartida só pegou na vassoura para tirar fotos.  
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