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Literatura

As ruínas da velha injustiça colonial paulista, por Fábio de Oliveira Ribeiro

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Por Fábio de Oliveira Ribeiro

01 de abril de 2148. Faz 130 anos que a guerra civil finalmente havia devastado as instituições da antiga capitania hereditária que existiam sob um verniz republicano. Levei meu netinho para ver as ruínas do antigo Tribunal de Justiça que durante muito tempo havia legitimado tanto a corrupção desenfreada do Palácio dos Bandeirantes quanto a odiosa brutalidade da extinta Polícia Militar.

As ruínas eram imponentes. Uma das portas de entrada do prédio ainda estava em pé, parcialmente derretida pelo incêndio. Junto a ela uma pequena seção da parede que a sustentava apresentava marcas dos tiros de canhão que havia recebido. Aquele havia sido um dia glorioso. O dia zero do ano zero.

Os livros contam a história em detalhes. Todos os desembargadores e juízes que se recusaram a aceitar a nova ordem foram presos no edifício do antigo Tribunal. Eles foram fazer companhias aos outros detentos que estavam no edifício: coronéis da PM, políticos desonestos, fiscais da receita estadual que haviam enriquecido de maneira duvidosa, a cúpula do Ministério Público e diversos deputados estaduais. As portas e janelas do prédio foram lacradas por fora.

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Uma noite de carnaval na ditadura, por Urariano Mota

Uma noite de carnaval na ditadura

por Urariano Mota

O que dizer de alguém como Vargas, que me fala nesta noite? É simples, absurdo, cheira mal e me dá lição de que bom é o pão para todos. Eu nada sei, e ninguém sabe até aqui, o heroísmo de que será capaz por uma razão fora do manual marxista que ele vulgariza, com o dedo na minha cara. Ele é o herói sem  Olimpo, devo dizer, o herói sem Homero, sem um só narrador, mas acima da nossa altura, penso, pela ação que desenvolverá daqui a menos de um ano. Agora, nesta noite da sexta-feira de carnaval, não. Com a cerveja que dá um calor do peito, com a batida de limão, o militante de oculto nome Getúlio parece não gostar de mim. E continua a inquisição:

- Você já leu Trótski? Nem mesmo Isaac Deutscher? Nãão?! 

- Eu vi Lênin – me defendo.

- O quê? O Estado e a Revolução? Que fazer? Imperialismo, etapa superior do capitalismo?

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Lista de Livros: Danúbio (Parte II), de Claudio Magris

Seleção de Doney

Lista de Livros: Danúbio (Parte II), de Claudio Magris

Editora: Companhia de bolso

ISBN: 978-85-3591-337-8

Tradução: Elena Grechi e Jussara de F. M. Ribeiro

Opinião: muito bom

Páginas: 448

      “As janelas dão para o Danúbio, abrem-se sobre o grande rio e sobre as colinas que o dominam, uma paisagem marcada pelos bosques e pelas cúpulas em formas de cebola das igrejas; no inverno, com o céu frio e as manchas de neve, as amáveis curvas das colinas e do rio parecem perder corpo e peso, tornam-se linhas leves de um desenho, uma elegante melancolia heráldica. Linz, a capital da Áustria Superior, era a cidade que Hitler amava mais que qualquer outra e queria transformar na mais monumental metrópole danubiana. Speer, o arquiteto do Terceiro Reich, descreveu aqueles projetos de edifícios gigantescos e faraônicos nunca realizados, nos quais Hitler, como escreveu Canetti, revelava sua febril necessidade de superar as dimensões já alcançadas anteriormente por outros artífices, sua obsessão agonística de bater todos os recordes.

     Nos sonhos do Führer, a ciclópica Linz que ele queria edificar deveria ter sido o refúgio da sua velhice, o lugar para onde ele sonhava retirar-se, depois de ter consolidado definitivamente o Reich milenar e tê-lo confiado a algum digno sucessor. Como muitos tiranos desapiedados, ele também, assassino de milhões e aspirante exterminador de povos inteiros, era um sentimental, que se comovia pensando em si mesmo e se embalava em fantasias idílicas. Em Linz, confiava de vez em quando a seus íntimos, teria vivido afastado do poder, quando muito disposto, como um benévolo avô, a dar conselhos aos herdeiros que viessem visitá-lo; mas talvez, dizia – coqueteando com a hipótese da própria destronação, bem decidido a não permiti-la nunca – ninguém viesse visitá-lo.

     Em Linz, onde havia passado anos serenos, o déspota sanguinário fantasiava reencontrar uma espécie de infância, uma estação livre de projetos e de metas. Provavelmente pensava com nostalgia naquele futuro vazio, no qual gozaria a segurança de quem já viveu, já combateu pelo domínio do mundo e já venceu, já realizou os próprios sonhos, que ninguém poderá mais frustrar. Quando imaginava aquele futuro, sentia-se talvez atormentado pela ansiosa angústia de alcançar logo seus objetivos e roído pelo temor de não conseguir alcançá-los. Desejava que o tempo passasse depressa para ter logo a certeza de ter vencido; desejava, em outras palavras, a morte, e em Linz planejava viver numa agradável segurança semelhante à morte, ao abrigo das surpresas e dos embates da vida.”

*

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a mão de caravaggio, 14, por romério rômulo

a mão de caravaggio, 14

por romério rômulo

 

caravaggio lavrou todo o vermelho

no lábio vertebral daquele inferno

de boca retalhada pelo mundo.

 

fez uns dedos tão sãos e bem cerzidos

a beleza tão dura e bem tratada

que meus olhos ficaram decaídos.

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Enquanto a chuva cai, por Manuel Bandeira

Sugestão de Gilberto Cruvinel

A chuva cai. O ar fica mole . . .

Indistinto . . . ambarino . . . gris . . .

 

E no monótono matiz

Da névoa enovelada bole

A folhagem como o bailar.

Torvelinhai, torrentes do ar!

Cantai, ó bátega chorosa,

As velhas árias funerais.

Minh'alma sofre e sonha e goza

À cantilena dos beirais.

Meu coração está sedento

De tão ardido pelo pranto.

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Os bastidores da agressão de Freire a Raduan Nassar, por Rafael Alves

 
Do Brasil 247
 
 
Por Rafael Alves
 
Texto literário é coisa para Raduan.
 
Textos jornalísticos felizmente já estão sendo veiculados.
 
Este é, quiçá, um desabafo. Uma reflexão a partir do evento em que Raduan Nassar recebeu o Prêmio Camões.
 
Raduan iniciou seu discurso dizendo ter tido dificuldade para entender o Prêmio.
 
Eu estou até agora com dificuldades para entender a cerimônia de premiação realizada ontem, 17 de fevereiro de 2017.
 
Por um lado, sinto a felicidade por ter estado presente num evento de tal importância, ter visto e ouvido uma pessoa como Raduan – o que especificamente em seu caso é algo ainda mais raro, considerando sua discrição e opção pela reclusão.

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Lista de Livros: Danúbio (Parte I), de Cláudio Magris

Seleção de Doney

Lista de Livros: Danúbio (Parte I), de Cláudio Magris

Editora: Companhia de bolso

ISBN: 978-85-3591-337-8

Tradução: Elena Grechi e Jussara de F. M. Ribeiro

Opinião: muito bom

Páginas: 448

     “É verdade que a existência é uma viagem, como se costuma dizer, e que passamos pela terra como hóspedes.”

*

     “Quando se viaja sozinho, como acontece com excessiva frequência, é preciso pagar do próprio bolso, mas algumas vezes a vida é boa e permite passear e ver o mundo, mesmo que só de vez em quando e por pouco tempo, com aqueles quatro ou cinco amigos que testemunharão por nós no dia do Juízo Final, falando em nosso nome.”

*

     “A relva do prado esta ensopada de água, todo o terreno esta encharcado e alagado por uma quantidade de riachos diminutos. No prado as duas irmãs se movem e se molham mais graciosamente que Amedeo, cujo fascínio consiste, aliás, em grande parte, na maciça e tranquilizadora corpulência à Pierre Bezukov. Sua pena é, todavia, digna daquela graça, pousa leve e graciosa nos pormenores como uma borboleta sobre as flores, fixa a ampla nitidez do dia. A fenomenologia tem razão, o simples aparecer das coisas é bom e verdadeiro, a superfície do mundo é mais real do que as gelatinosas cavidades interiores. Santo Agostinho estava parcialmente enganado, quando aconselhava a não sair de si mesmo: quem permanece sempre no interior, divaga e se perde, acaba por queimar incenso a algum ídolo de fumaça saído do lixo dos seus temores, vazio e insidioso como os íncubos que a oração da noite intima a desaparecer.”

*

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Os Pensadores

Enviado por Gilberto Cruvinel

Os Pensadores

Do Filosofando

“Os Pensadores” é uma coleção de livros que reúne as obras dos filósofos ocidentais desde os pré-socráticos aos pós-modernos. O interessante desta coleção é que ela reúne em cada exemplar um pequeno apanhado sobre a biografia do autor em questão e um, dois ou três livros deste mesmo autor, normalmente os títulos mais conhecidos.

Publicada originalmente pela editora Abril Cultural, entre os anos de 1973/1975 era composta de 52 volumes. A edição que indicamos é de 1984 e é composta por 56 títulos (em PDF), segue abaixo a lista de títulos disponíveis. Clique AQUI para baixar.

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Três recortes da STA, minha fictícia agência de publicidade, por Sebastião Nunes

Três recortes da STA, minha fictícia agência de publicidade

por Sebastião Nunes

Entre 1980 e 2000 publiquei quatro edições de um livro que me dá saudade. Por conta dessa lembrança boa, e porque “Somos todos assassinos”, satírico e corrosivo, me parece bastante atual, estou preparando uma quinta edição. Cada “capítulo” é estruturado como um anúncio impresso, ocupando uma ou duas páginas no máximo, com título, ilustração e texto, seguindo o padrão da época em jornais e revistas. Reproduzo aqui três dos textos avulsos, ilustrados com um outdoor “patrocinado” pela STA.

 

O PROGRESSO VOCÊ É QUEM FAZ

Vim de Pernambuco sem emprego e sem coragem, mas meu pai era rico e estudei administração de empresas na PUC e doutorei-me nos Estados Unidos.

Voltei dos Estados Unidos magro e desanimado, mas ganhei apartamento no Leblon, cartões de crédito e pequeno carro esporte italiano.

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Imagens

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O império da dor, por Daniel Afonso da Silva

O império da dor

por Daniel Afonso da Silva

Bertrand Badie domina a arte de surpreender, provocar e cativar. Autor e professor consagrado em todo o mundo como refinado analista político e observador do meio internacional, ele vem há mais de quarenta anos ampliando nossos instrumentos de apreensão política das realidades internacionais. Sociologie de l’État (1979), La fin de territoire (1995), Un monde sans souveraineté (1999), L’impuissance de la puissance (2004), Le diplomate et l’intrus (2008), La diplomatie de connivence (2011), Quand l’Histoire commence (2013), Le temps des humiliés (2014) são apenas algumas de suas provocações-texto.

Seu último livro, « Un monde de souffrances », consiste na provocação-texto mais recente.

Nele Badie afirma e demonstra que o mundo hodierno vive sob o império da dor e do sofrimento. Pessoas de carne e osso, em sua individualidade e singularidade, alegria e frustração, adentraram essa cena social internacional para não mais sair. Viraram protagonistas incontestáveis de todos os processos políticos nacionais e transnacionais.

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"Não há como ficar calado": a íntegra do discurso de Raduan Nassar no Prêmio Camões

Da Carta Capital

 
Em seu pronunciamento na entrega do Prêmio Camões de literatura, o escritor critica o golpe, o governo Temer e o STF. Leia a íntegra
 
Às dez e meia da manhã desta sexta-feira 17, o escritor Raduan Nassar subiu ao palco montado no Museu Lasar Segall, em São Paulo, para receber o Prêmio Camões de 2016, honraria concedida pelos governos do Brasil e Portugal e um dos principais reconhecimentos da literatura em língua portuguesa. Nassar ofereceu à plateia o seguinte discurso:
 
Excelentíssimo Senhor Embaixador de Portugal, Dr. Jorge Cabral.
 
Senhor Dr. Roberto Freire, Ministro da Cultura do governo em exercício.
 
Senhora Helena Severo, Presidente da Fundação Biblioteca Nacional.
 
Professor Jorge Schwartz, Diretor do Museu Lasar Segall.
 
Saudações a todos os convidados.
 
Tive dificuldade para entender o Prêmio Camões, ainda que concedido pelo voto unânime do júri. De todo modo, uma honraria a um brasileiro ter sido contemplado no berço de nossa língua.  
 
Estive em Portugal em 1976, fascinado pelo país, resplandecente desde a Revolução dos Cravos no ano anterior. Além de amigos portugueses, fui sempre carinhosamente acolhido pela imprensa, escritores e meios acadêmicos lusitanos.

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Lista de Livros: Por uma outra globalização (Parte II), de Milton Santos

Seleção de Doney

Lista de LivrosPor uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal (Parte II), de Milton Santos

Editora: Record

ISBN: 978-85-0105-878-2

Opinião: excelente

Páginas: 174 

     “O território não é apenas o resultado da superposição de um conjunto de sistemas naturais e um conjunto de sistemas de coisas criadas pelo homem. O território é o chão e mais a população, isto é, uma identidade, o fato e o sentimento de pertencer àquilo que nos pertence. O território é a base do trabalho, da residência, das trocas materiais e espirituais e da vida, sobre os quais ele influi. Quando se fala em território deve-se, pois, de logo, entender que se está falando em território usado, utilizado por uma dada população. Um faz o outro, à maneira da célebre frase de Churchill: primeiro fazemos nossas casas, depois elas nos fazem... A ideia de tribo, povo, nação e, depois, de Estado nacional decorre dessa relação tornada profunda.”

*

     “A consciência da diferença pode conduzir simplesmente à defesa individualista do próprio interesse, sem alcançar a defesa de um sistema alternativo de ideias e de vida. De um ponto de vista das ideias, a questão central reside no encontro do caminho que vai do imediatismo às visões finalísticas; e de um ponto de vista da ação, o problema é ultrapassar as soluções imediatistas (por exemplo, eleitoralismos interesseiros e apenas provisoriamente eficazes) e alcançar a busca política genuína e constitucional de remédios estruturais e duradouros.

     Nesse processo, afirma-se, também, segundo novos moldes, a antiga oposição entre o mundo e o lugar. A informação mundializada permite a visão, mesmo em flashes, de ocorrências distantes. O conhecimento de outros lugares, mesmo superficial e incompleto, aguça a curiosidade. Ele é certamente um subproduto de uma informação geral enviesada, mas, se for ajudado por um conhecimento sistêmico do acontecer global, autoriza a visão da história como uma situação e um processo, ambos críticos. Depois, o problema crucial é: como passar de uma situação crítica a uma visão crítica – e, em seguida, alcançar uma tomada de consciência. Para isso, é fundamental viver a própria existência como algo de unitário e verdadeiro, mas também como um paradoxo: obedecer para subsistir e resistir para poder pensar o futuro. Então a existência é produtora de sua própria pedagogia.”

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carolina para chico buarque, por romério rômulo

carolina para chico buarque

por romério rômulo

 

vou encontrar carolina

no branco do meio dia

no branco daquela pele

pétala de roseiral

num verso que me fogueia.

 

ser carolina é fatal.

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Catarina e Jarirí - uma paixão sobre-humana, por Cafezá

Catarina e Jarirí - uma paixão sobre-humana

por Cafezá

Incuantu eiles tavam ispéranu inditráizi  du galinheru, Rafaé Cascudo priguntô pá mestre Bódim:

- Mestre, u qui ucê falô pás galinha qui dexô éilas tão calmas?

- Nada di importanti, Rafaé. Ieu falei prélas sabê qui a mia vóz num éira di bicho cumedô, di um gambá, pur exempro. As galinha têm bãos zuvidos, éilas cunhece os grunhido di tudos os animar inimigos déilas.

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Lista de Livros: Por uma outra globalização (Parte I), de Milton Santos

Seleção de Doney

Lista de LivrosPor uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal (Parte I), de Milton Santos

Editora: Record

ISBN: 978-85-0105-878-2

Opinião: excelente

Páginas: 174

     “A máquina ideológica que sustenta as ações preponderantes da atualidade é feita de peças que se alimentam mutuamente e põem em movimento os elementos essenciais à continuidade do sistema. Damos aqui alguns exemplos. Fala-se, por exemplo, em aldeia global para fazer crer que a difusão instantânea de notícias realmente informa as pessoas. A partir desse mito e do encurtamento das distâncias – para aqueles que realmente podem viajar – também se difunde a noção de tempo e espaço contraídos. É como se o mundo se houvesse tornado, para todos, ao alcance da mão. Um mercado avassalador dito global é apresentado como capaz de homogeneizar o planeta quando, na verdade, as diferenças locais são aprofundadas. Há uma busca de uniformidade, ao serviço dos atores hegemônicos, mas o mundo se torna menos unido, tornando mais distante o sonho de uma cidadania verdadeiramente universal. Enquanto isso, o culto ao consumo é estimulado.

     Fala-se, igualmente, com insistência, na morte do Estado, mas o que estamos vendo é seu fortalecimento para atender aos reclamos da finança e de outros grandes interesses internacionais, em detrimento dos cuidados com as populações cuja vida se torna mais difícil.

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