Revista GGN

Assine

Crônica

Delação de Pedro Malasartes e programa Criança Desesperança, por Sebastiao Nunes

Uma semana antes do casório, o Noivo-Velho deixou de lado os preparativos para se dedicar a nova tarefa: lançar uma grande campanha de arrecadação de fundos para rechear os bolsos dos cupinchas.

Reunidos no salão de festas do Palácio do Planalto, ministros, senadores, puxas e deputados fizeram absoluto silêncio quando o Chefão-Golpista-Mor perorou assim:

– Meus amigos, irmãos, camaradas, dar-vos-ei hoje uma rápida pincelada do que tramamos nas madrugadas dos porões.

Pigarreou o grosso pigarro dos velhos e continuou:

– Vamos lançar o notável programa Criança Desesperança, destinado a abiscoitar um trilhão de reais para nossos esvaziados fundos.

Leia mais »

Imagens

Média: 5 (7 votos)

Um best-seller no Piauí, por Rui Daher


Reprodução de cena do filme Viramundo (1965), de Geraldo Sarno, sobre migração de nordestinos à São Paulo

Por Rui Daher

Já foi mais, proporcionalmente, muito mais, diria. Lembram do trecho falado por Bethânia ou Nara Leão em “Carcará”, do show “Opinião”. É obrigação citar os autores dessa obra antológica: Oduvaldo Vianna Filho, Paulo Pontes, João do Valle, Armando Costa, e o diretor Augusto Boal.

Mas assim sempre continuou. Até hoje. Um pequeno intervalo, entre 2005 e 2015, quando se ensaiou um movimento de reversão pelo desenvolvimento de renda, emprego e programas sociais dirigidos para aquela região por Lula.

A imigração nordestina para o Sudeste, principalmente São Paulo, é um fenômeno que construiu a metrópole, hoje “amargarinada” por Doriana Júnior, mas ainda entronizada em nossas periferias e mesmo em âmagos burgueses.

Leia mais »

Imagens

Média: 5 (9 votos)

O olhar de meu pai, por Luis Nassif

Uma crônica de 2006, para o dia dos pais

Antes dos 13 anos, declarei guerra a meu pai. Eu passara para o terceiro ano do ginásio, mudou o irmão Marista titular da classe, e tive a oportunidade de tirar o primeiro lugar, algo que não conseguira nos dois anos anteriores.Fui para casa de boletim na mala e peito estufado, e o velho nem ligou. À noite, no encontro de pais e alunos no Marista, um pai chegou perto de nós, saudou o meu feito e indagou se manteria a colocação. Seu Oscar respondeu irritado: "Problema dele". Anos depois, Chafik, seu melhor amigo, me contou que ele não se conformara com minha decisão de, aos 12 anos, me tornar jornalista, e não seu sucessor na Farmácia Central.

Leia mais »

Média: 4.8 (33 votos)

Metamorfose, por Janderson Lacerda

Foto: Jornalistas Livres

Por Janderson Lacerda

Metamorfose

Em certa manhã, incomodado pelo cheiro de enxofre que invadia suas narinas, ele despertou de um profundo sono. Ainda deitado sobre uma cama Parnian Furniture, com lençóis macios de pura seda, sentia seu corpo fumegar, no mesmo instante em que seus batimentos cardíacos aceleravam repentinamente. Não conseguia compreender se o taquicardia era motivado pelo cheiro de enxofre ou por seu corpo, destemperado, que sofria com uma sensação intensa de aquecimento.

Leia mais »

Média: 5 (6 votos)

Os meus leoninos, por Rui Daher

Leoninos queridos, durante anos estivemos juntos, em algum dia do mês de agosto, em minha casa, para festejar nossos aniversários. A primeira amiga, Ticha Godoy, é do dia12. É, pois, a primeira a ser homenageada. Depois, viriam o Dino (15), churrasqueiro, chapeiro e leitor inveterado; Eduardo (também, 15), o mais lúcido agrônomo do Brasil; eu (16); e o Betinho (18), o mais antigo amigo que, aristocrata de Higienópolis, não fosse um lorde, hoje, cortaria várias cabeças que por lá habitam. Quando estamos a sós, o confessa com ferozes grunhidos e murros gestuais na direita medíocre.

Com eles, vinham cônjuges, agregados e amigos eventualmente convidados, ou mesmo não, que assim é este “turco” festeiro. Entravam nas nossas diversões, folias, risadas, e o parabéns-toada coletivo que terminava no assopro de alguma vela – a do Klink, talvez, quando minha resistência alcoólica ainda não havia atingido o zero. No dia seguinte, nunca lembrei se alguém havia ficado para o café-da- manhã.

Leia mais »

Imagens

Média: 4.4 (7 votos)

Plantas e cinzas de cigarro, por Maíra Vasconcelos

Quem disse não ao fracasso? Viveu de acertos moderados e mortiços: aquele vizinho do andar de cima. Desculpe-me a indiscrição, senhor Facundo. Responder sim ao fracasso tem aparência amarela, ao meio-dia está-se revigorado para volver em outra manhã. Novamente, a pensar o fracasso. Conto até dez e a preguiça embola mais um nó em meus ossos. Melhoro a minha palavra em zero vírgula oito por cento, apenas. Então escrevo praticamente como ontem, mais uma vez. Vinte e quatro horas de reclusão do mundo e nenhum salto, o mesmo fracasso cutucando com unhas a minha janela. Qual será o tempo da melhor palavra? Olho o vizinho na tentativa de ter a cidade mais próxima. Qual cidade? Não cheguei. Leia mais »

Média: 5 (1 voto)

O fundo do poço e o limite, por Madrasta do Texto Ruim

O fundo do poço e o limite

Um conto metafórico da Madrasta do Texto Ruim

- CHEGA!

- Pra mim já deu! Tô indo EM BO RA deste país!! Num guento mais ser usada e abusada deste jeito! Vou-me embora para Berkeley! George Lakoff e Mark Johnson¹ hão de me proteger!

Todos naquele Congresso de Linguística se assustaram. A Metáfora do Fundo do Poço não estava de brincadeiras. Pelo contrário, carregava duas malas cheias. Ela estava mesmo de mudança.

- Eu sou uma forma de conceber uma coisa em termos de outra coisa!! Minha principal função é fazer as pessoas entenderem O QUE TÁ COM TESENO AQUI!!!! Como vocês ainda ousam falar em fundo do poço para se referir à capa da Istoé, à capa da Época, à capa da Veja?

Leia mais »

Média: 4.5 (8 votos)

Por que ocupam a Câmara Municipal de São Paulo?, por Urariano Mota

Por que ocupam a Câmara Municipal de São Paulo?

por Urariano Mota

Falam as notícias desta sexta-feira:

“O plenário da Câmara Municipal de São Paulo continua ocupado após 70 integrantes de diversos movimentos sociais invadirem o espaço com bandeiras e cartazes.

Os manifestantes pedem o fim das restrições no passe livre estudantil e protestam contra os projetos de lei (PL) 364 (venda do estádio do Pacaembu),  367 (pacote de concessões à iniciativa privada) e 404 (venda de imóveis iguais ou inferior a 10 mil metros quadrados) e pedem a realização de um plebiscito para que a sociedade possa decidir sobre as privatizações. O presidente da Câmara não atendeu ao pedido dos estudantes de retirada dos três projetos de lei e disse que isso não é possível ser feito devido ao regimento da Casa.

Leia mais »

Média: 3.7 (6 votos)

Elis e o último show Saudade do Brasil, no TUCA, por Fernando J.

Elis e o ultimo show Saudade do Brasil, no TUCA

por Fernando J.

Comentário ao post Xadrez de como os músicos vieram salvar a utopia Brasil, por Luis Nassif

Revirando o HD da memória, só pode ter sido no segundo semestre de 1980, visto que no primeiro semestre morei no interior da Bahia e o LP e o show são desse ano. O show Saudade do Brasil estava já no último dia, no TUCA, um domingo, após algumas semanas em cartaz.

O táxi me deixou na esquina da Monte Alegre, quando desci reparei em uma menina negra, muito magra, gorro na cabeça (estava frio) que mascaravam suas feições, vendendo flores no cruzamento. Idade indefinida, não era nova, talvez entre 30 e 40 anos. Ou talvez fosse nova e a vida difícil lhe desse feições de mais velha. 

Leia mais »
Média: 5 (4 votos)

Outros espelhos, por Maíra Vasconcelos

Outros espelhos, por Maíra Vasconcelos

Belo Horizonte, maio de 2017.

Aprendi a acender velas. Um pouco sozinha, aprendi a ter o olho que vê a chama mais alta da vela. Para tanto, um olho cavalar. O olho que se direciona impávido ao mundo, cria uma personagem à espreita na sombra de uma árvore. O olhar que aprende a ter plantas e a cultivá-las, preservar harmoniosamente os verdes vivos até o corpo cantar. Como se plantas irrigassem a vida sólida, durante o café, após o café.

Junto a plantas não há solidão, pois sobre seus reinos talvez não exista completa apreensão. Será possível entender as plantas desde a raiz até sua última ponta de luz? Velas são mais acessíveis. Olhar fixamente a velas depende da introspecção que não teme a si mesma e mergulha. Ter cumplicidade com velas é um alívio. Mas toda vela puxa a solidão, aviso. E as plantas, não. Pode ser inquietante não se adaptar à interioridade que a vela exige. É como não saber encaixar-se dentro de si mesmo. Ao olhar a chama da vela o corpo se expande no interior, revela-se novo naquilo que não se vê, mas se sente.

Leia mais »

Média: 3 (1 voto)

Facebookspan, alívio imediato para a dor, por Rui Daher

Facebookspan, alívio imediato para a dor

por Rui Daher

Em excelente texto, “Redes sociais e catarse coletiva”, Ion de Andrade, primeiro, “rouba” o tema que eu analisaria neste irresistível GGN; segundo, deixa espaço para algumas observações do BRD, meio no desvio, no vai-não-vai, sem a colaboração de Nestor e Pestana (N&P), que fecharam contrato de exclusividade com o Facebook depois de árdua disputa com o PSG.

O clube árabe-francês queria contratá-los para contarem quantas pessoas acessarão as bilheterias da Tour Eiffel usando a camisa de Neymar Jr. Ofereciam: dois meses num albergue de 10 euros por dia, camas separadas, banheiro no corredor, vigiado noite e dia por um liberiano que já estivera no Brasil e fora extraditado por assédio sexual a jotnalistas, mulheres ou não. Para a refeição uma baguete por dia para cada um, sobras de uma boulangerie. Salário: fixo mensal de 150 euros e prêmio de 10 euros a cada gol de Neymar Jr.

Leia mais »

Imagens

Média: 4.3 (4 votos)

Temer, novo palavrão da língua, por Urariano Mota

Temer, novo palavrão da língua

por Urariano Mota

Bem sei que a pesquisa no google não é bom método de ciência. Por experiência sei que esse buscador reflete o que é notícia na imprensa e na rede. Mas sei que ainda assim, mesmo sem espelhar um método científico, todos nos aproximamos dele como um dos indicadores de pesquisa, para filtrar suas informações com melhor crítica e peso. Por isso ao google recorremos. E no caso do Temer palavrão, o que encontramos tem sabor de uma descoberta.

Convido o leitor para um breve teste. Se buscar agora a frase Temer criminoso, terá 899.000 resultados. Se for atrás do Temer ladrão, pegará 725.000. Se procurar Temer corrupto, achará 685.000. Se procurar Temer puta, tê-lo-á em 599.000 soluções. Temer cu, 585.000.  Temer 171, 525.000. Temer merda, 484.000.  Temer pornográfico, 479.000. Temer canalha, 435.000. Temer safado, 369.000.

Leia mais »

Média: 4.5 (8 votos)

Santa Corrupção, por Janderson Lacerda

Imagem: Reprodução/Internet

Santa Corrupção

por Janderson Lacerda

Madalena levantou-se bem cedo (antes que o galo cantasse) não despediu de seu marido que dormia sem incomodar-se com o, estrondoso, barulho provocado por seu próprio ronco. Apanhou o terço, a bolsa e saiu em jejum, balbuciando uma oração; correu para não perder o ônibus e viajou por quinze quilômetros até chegar ao seu destino final; a igreja católica, localizada, próxima ao terminal metropolitano de São Mateus.

A igreja era pequena, mas muito bem conservada. O pároco mal terminou de abrir as portas, quando Madalena adentrou apressada no santuário.

Sua bênção, padre.

Deus te abençoe! Resmungou o pároco em meio a um longo bocejo.

Madalena sentou-se na primeira fileira e começou a rezar, pedindo a São Jérôme que a agraciasse com um emprego.

A mulher era devota de São Jérôme, por acreditar que os santos franceses teriam maior influência no reino celestial. Nunca explicou o que a motivava a pensar desta forma, apenas dizia isto ao seu marido, e o estimulava a rezar e cultuar o mesmo Santo. Enquanto Madalena fazia sua prece, o padre dormia debruçado sobre a mesa que ficava próxima a entrada principal da igreja.

Leia mais »

Média: 5 (4 votos)

Lucy Kellaway, please be back soon, por Rui Daher

Lucy Kellaway, please be back soon, por Rui Daher

Em 1967, fui à rua Martins Fontes, ao lado do edifício do Estadão, em São Paulo, para tirar minha primeira carteira de trabalho. Estudava no período noturno, o que me permitia ser um celetista, carteira assinada por uma empresa da família Maluf. Museus aceitam doações.

Nestes cinquenta anos, trabalhando em chãos de fábricas, galpões, escritórios, campos de lavouras, vi de tudo e a todos. Volta e meia, passagens e pessoas do período vêm-me à lembrança. Alguns me assustam, a maioria faz-me rir. Causos e gentes. Tristeza e saudade pelos que trilharam caminhos diversos ou caíram em combate, que trabalho é sempre isso. Nunca mais os vi.

Em 2004, quando o falecido amigo, jornalista e escritor Fritz Utzeri me convidou para escrever em seu jornal eletrônico, o Montbläat, a primeira ideia foi retratar as patacoadas que presenciava no ambiente de trabalho. Um batalhão de paspalhões. Seria moleza. O arsenal verdadeiro era farto e o ficcional imenso. Não lembro por que mudei de ideia. O anzol da política, talvez.

Leia mais »

Imagens

Média: 4.4 (7 votos)

Farinha com açúcar: Palestina tropical, por Dalmoro

Farinha com açúcar: Palestina tropical [Diálogos com o teatro] [Diálogos com a literatura] [Diálogos com a música]

por Dalmoro

Recentemente reli Contos da Palestina, do escritor palestino Ghassan Kanafani (morto em um atentado em 1972). Como na primeira leitura, dez anos antes, me veio a imagem de que os contos de Kanafani são como passar uma lâmina afiada por toda a extensão do braço - várias vezes. Não é a lâmina que crava fundo, força o grito e abre o braço em dois, inviabilizando-o. É ferida feita na profundidade suficiente para que doa, sangre, marque, mas não interrompa o quotidiano - pior, renovar essa ferida e essa dor é o próprio quotidiano. Como diz uma das personagens de "Os desertores e outros":

Leia mais »

Imagens

Média: 5 (5 votos)