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Crônica

Em setembro, por Maíra Vasconcelos

Em setembro

por Maíra Vasconcelos

Algumas noites foram assim, como rios e rios que passassem pela minha janela. As mãos sem leite sem pão, apenas tocavam águas imponderáveis. Algum dia deveriam se deter, digo, essas águas esses rios, tal como acontece com a vida ribeira, com toda essa vida consentida. Célere, cada água ocupava o silêncio absoluto do outro lado de mim, esse sol que se envergava para dentro dentro. Já o sorriso corria com as águas cada vez mais desfiladas. Sorria muito, nesta época, a seriedade me cairia muito velha, como acontece ainda nos dias atuais.

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Terror e antropofagia na Inglaterra, por Fábio de Oliveira Ribeiro

FOTO: JACK TAYLOR/GETTY IMAGES

 

- Ei, Jeremy, você vai gostar deste caso. Venha assistir o interrogatório deste suspeito irlandês.

 

Jeremy era policial há 15 anos. Havia ganhado notoriedade nos jornais e respeito entre os colegas por ter ajudado a resolver os maiores roubos a bancos da Inglaterra. Se não fosse careca, apaixonado por roupas punks e beberrão nas horas vagas, ele seria um verdadeiro Hercule Poirot moderno.


Policial meticuloso, inteligente e dotado de uma imaginação científica invejável, Jeremy não foi capaz de antecipar o que iria ocorrer diante de seus olhos. Eles haviam sido treinados para ver os detalhes além das aparências e não para testemunhar a realidade do terror neoliberal.


Um vidro espelhado separava Jeremy e seu colega do interrogatório. Na outra sala, ainda coberto de terra, o suspeito era questionado por Bill.

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Dominó de Botequim, o Retorno - Capítulo 2, por Rui Daher

Por Rui Daher

O que são dois anos em nossas vidas? O tempo passa voando ou não passa. A cada momento e situação pensamos de um jeito. É comum achar que, afastados 24 meses de pessoas ou locais, ao voltarmos, os encontraremos mudados. Nem tanto, mas que nada. Nos hotéis antigos os mesmos velhos recepcionistas, em restaurantes os solícitos garçons de sempre. Meus médicos só mudaram quando se puseram a copiar os advogados e se determinaram o uso obrigatório da gravata sob o jaleco branco.

Passei uma semana pensando nisso, depois de instado pelos amigos Fernando e Manoel, e a incisiva carta do Conselho Consultivo, os membros incrédulos com minha prolongada ausência.

Poderia relutar? Dois amigos e coautores do livro, e quem muito inspira meu escrevinhar, Darcy, Ariano e Melodia. Além do potencial financiador Walther.

Mas quem me conhece já percebeu. Sou tímido, inseguro em algumas situações, temo ouvir “não”, motivo de pouco pedir ou exigir. Aliás, pode ser isso a fazer encalharem alguns exemplares do livro. Mesmo às livrarias que ainda não me devolveram os saldos, evito cobrar. Para quê? Mais decepção?

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Inquisição, por Janderson Lacerda

Por Jaderson Lacerda

A família de Carlos sempre reunia-se para jantar. A mãe, Dona Vera, acredita que fazer, ao menos, uma refeição juntos era primordial para cultivar os vínculos afetivos e, principalmente, preservar os valores morais e éticos.

Carlos tinha 15 anos e, frequentemente, era questionado a respeito do andamento das aulas. A resposta era sempre a mesma: “boa”!

No entanto, neste dia, o rapaz parecia mais inspirado e quando perguntado, disse que foi muito legal. O pai, então, quis saber um pouco mais (apesar de transparecer certo ar de tédio): “é mesmo? Por que foi legal”?

“A professora falou sobre a boceta da Pandora”!

“Como”? Respondeu o pai, com os olhos arregalados. Enquanto a mãe engasgava-se, tossia e soluçava; tudo ao mesmo tempo.

“A professora disse o quê, Carlos”?

“Leu um texto sobre a boceta da Pandora e, também, falou sobre o matar cavalos, pai”...

“Olha a boca, menino”. Bradou a mãe já recuperada.

“Carlos, por favor, vá para o seu quarto. Eu preciso conversar com a sua mãe”.

“Mas, pai?”.

“Sem mais, por favor!”

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Busca e apreensão, eu quero, por Rui Daher

Busca e apreensão, eu quero

por Rui Daher

Estou num hotel delicioso à beira do Rio Piracicaba. Dois dias intensos no 1º ESALQ-SHOW, de que tratarei em CartaCapital, na próxima terça-feira, enquanto Ronaldo Caiado continuará expondo na Folha de São Paulo articulações políticas fascistas, sem ir ao âmago do agronegócio, não estivesse rico depois de tantos mandatos. Aliás, parêntesis, vocês pagam para ele escrever? Caso positivo, vai mal a empresa, hein?

Confesso-me indignado. Não com isso, que o suspeito jornal não desconfia ou se aproveita. Mas, com a absurda ação de busca e apreensão na casa de Marcos Lula, filho de um presidente que o Brasil ousou ter no passado e de quem os pobres devem-se lembrar.

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Jair Bolsonaro arrasa nos EUA, por Rui Daher

Jair Bolsonaro arrasa nos EUA, por Rui Daher

Sabendo que o “Dominó de Botequim, o Retorno” estava em aproximados e acelerados passos de ressurgimento, os velhos repórteres, Nestor e Pestana (hoje atuando apenas no Facebook), me procuraram:

- E daí?

Respondo:

- Uai, e daí e daí, como canora Isaurinha Garcia, ou, mais macho, Miltinho, bem cantavam.

- Não vai mesmo mais tratar de política nacional?

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Candidato 3D, por Janderson Lacerda

Candidato 3D, por Janderson Lacerda

O diretório estadual do partido estava em festa com a chegada da impressora 3D. Ao mesmo tempo, algumas lideranças não compactuavam com a mesma euforia; e demonstravam, até mesmo, certa preocupação.

A juventude conservadora do partido bramava com alegria; enquanto um importante líder (idealizador do projeto) discursava com entusiasmo.

“Entraremos para história ao construirmos um candidato perfeito. Com as características desejadas pelo povo brasileiro. Alguém capaz de nos representar diante dos holofotes; e com ambição suficiente para derrotar os algozes que nos perseguem. Sairemos desta assembleia para adentrarmos no futuro. O futuro é agora”!

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Dominó de Botequim, o Retorno - Capítulo 1, por Rui Daher

Dominó de Botequim, o Retorno - Capítulo 1

por Rui Daher

Encontro os amigos Fernando Juncal e Manoel Vieira, coautores do “Dominó de Botequim”, livro por mim lançado em dezembro de 2016.

Marcamos no Bar do Ceará, em Vila Buarque, São Paulo, pertinho da Rua Maria Antônia, onde eu frequentava as leituras e discussões das obras de Karl Marx com orientação dos professores Bento Prado Jr. e Antonio Benetazzo. Descendo a Vilanova, olhava para a portinha onde ficava o “Bar sem Nome”. Quem sabe sobrara um banquinho para nos sentarmos ao lado de Chico Buarque e Maranhão, vindos da FAU para bebericar cachaça, poesia e política?  

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Casas IV, por Maíra Vasconcelos

Obra de José Antônio da Silva

Casas IV, por Maíra Vasconcelos

Há casas cantoras de vidas retidas em brechas e cheiros guardados. Aos corações com insônia, preserva intacto sempre os mesmos corredores, becos entre quarto e sala, sofás desgastados para se ter onde caminhar exaustivamente. Em tantos lugares, casas não sendo o lugar de ninguém. Casas removedoras de sonos como trincheiras sempre dispostas ao amanhã. Outras casas fazem dormir como se intimidades fossem sempre prestativas e acolhedoras. Rodeadas por veias entrelaçadas, maxilares roedores, cheias de aptidão para guardiãs dos corpos desaveludados pelo tempo. Muitas casas sem livros, assim com os olhos cortados sem ter por onde escorregar o próprio caçador de si. Outras com tantos livros como cascas protetoras das lixas do pensamento inútil.

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Dominó de Botequim, o Retorno - Prólogo, por Rui Daher

Dominó de Botequim, o Retorno - Prólogo, por Rui Daher

No início de dezembro fará um ano do lançamento do “Dominó de Botequim, na Livraria da Vila, da Fradique Coutinho, São Paulo. Foi uma glória, logo transformada em crescentes decepções. Antes, todas as dificuldades com gráfica, ISBN, convites. Muitos me ajudaram, o que foi reconhecido nas primeiras páginas do livro. Mas fui em frente, mesmo em prejuízo da atividade que me traz a sobrevivência.

Vivo a me questionar se valeu a pena transformar essas crônicas em um livro, publicado de forma independente, com investimento pessoal total. Certamente, não. Perdi uma grana que não tenho para poder, por exemplo, visitar amiúde o mar.

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Descarados, por Rui Daher

Descarados, por Rui Daher

Quando criança, sempre que meu pai se referia a alguém como descarado, imaginava o dito sem os contornos faciais. Logo corria ao espelho e, sorte, estava tudo ali. Como na música, todos poderiam entrar em mim “pelos sete buracos da minha cabeça”. Não preciso citá-los, vocês os conhecem bem.

“Isto é um descaramento”. Pronto, lá ia eu procurar pelos cômodos da casa onde estava sendo feita a cirurgia. Não encontrava sangue e logo pensava em massa de pedreiro e ferro de passar.

“João Alfredo? O maior descarado”. Seria pela altura do pobre João ou mereceria ele tratamento rápido. Degola, por exemplo.

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A resistência eterna da nossa juventude, por Urariano Mota

A resistência eterna da nossa juventude

por Urariano Mota

O romance “A mais longa duração da juventude” fala por si, desde o título. Mas ele também fala em trechos como estes:

“Acompanho os fios brancos de suas cabeças se tornarem frágeis, quebradiços, e me falo e percebo que algumas não piscaram no alto. No píncaro do tempo, não decaíram, como se fossem uma revolta contra a biologia, contra a organização da vida que se desorganiza e se desintegra quando chega ao fim. Parodiando Goethe no poema Um e Tudo, eles foram atravessados pela alma do mundo, e com ela lutaram sem descanso, como se vivos pudessem ter a eternidade. Tomaram outras formas, é certo, mas mantiveram a permanência do ser da juventude. Como? Não sou um filósofo, e assim não posso escrever ‘uma análise concreta de uma história concreta’, para usar frase dos anos de 1970. 

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Discurso pré-histórico, por Janderson Lacerda

Discurso pré-histórico

por Janderson Lacerda

Não sabemos, ao certo, quando a humanidade começou a falar. Alguns cientistas defendem a hipótese de que a linguagem verbal não demorou milhares de anos para ser desenvolvida. Outros especulam que o homem primitivo começou a formular as primeiras palavras há cerca de 1,8 milhão de anos. Antes disso, os grunhidos eram os sons emitidos por homens e mulheres  e, apenas, os: — Brrr! Grrr! Hmmm! Ihhhh! Eram ouvidos na face da terra.

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História para não se contar II, por Rui "Esforçado" Daher

História para não se contar II

por Rui "Esforçado" Daher

Esforço-me para lembrar o que aconteceu naquela madrugada de 26 de setembro. Ontem, parecia tudo tão claro. Mas, como já explicado, acabei perdendo o texto. Sei que o infernal barulho que faziam os cruzeirenses não me deixava dormir. A conversa que mantive com Darcy, Ariano e Melodia sobre os caminhos futuros do “Dominó de Botequim, o Retorno” confundia-se com a dúvida em parar de escrever e apenas dedicar-me à administração, que odeio, mas necessária à sobrevivência, havia 20 anos fartamente conquistada, e hoje surrupiada entre ingenuidade, dever ético e promessas não cumpridas. 

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O dia em que Franz Kafka decidiu ser escritor, por Sebastião Nunes

Por Sebastião Nunes

– Imbecil! – berrou Hermann Kafka. – Você já tem idade suficiente pra fazer as coisas direito, seu idiota!

O pequeno Franz se encolheu e olhou o pai com grandes olhos amedrontados.

– O que foi que sua mãe mandou você comprar?

– Galinha casher.

– E o que foi que você trouxe?

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