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Blog de Sebastiao Nunes

A delação premiada de Pedro Malasartes – Delírios noturnos do velho caduco

Intervenção sobre pintura de Domenico Ghirlandaio

Por Sebastião Nunes

Um grito de arrepiar alma penada atravessou as abóbadas do palácio do... Qual é mesmo o nome daquele bicho de perna comprida, pescoço vermelho e cabecinha preta? Ah, deixa pra lá. Bota aí tapujaca, jabiru, jaburu, tuiuiú, qualquer coisa do tipo.

Quem assim gritou, devastado de medo, foi o noivo-senador, apavoradíssimo, pulando da cama na luxuosa alcova presidencial-golpista.

Acabava de sonhar com uma figura sinistra de dentes compridos e sangue à beça escorrendo pela cara. Assustadora mesmo.

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A delação premiada de Pedro Malasartes – Conversa fiada antes do casório, por Sebastião Nunes

A delação premiada de Pedro Malasartes – Conversa fiada antes do casório

por Sebastião Nunes

Resumo da ópera:

Morrera a mãe do pequetito Pedro em meio aos angustiantes tédios da riqueza mal adquirida. Apenas dois dias após a morte da primeira consorte, mãe de Malasartes, o muxibento pai, poderoso senador da República, de 70 e muitos outonos, arregalou as butucas para cima de bonita ex-miss de apenas 22 primaveras. Como se vê, estava mais é procurando sarna para se coçar. Enfim, trata-se de versão tupiniquim-mambembe do clássico “A bela e a fera”. Estamos na terceira fase dos preparativos de tal casamento.

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A delação premiada de Pedro Malasartes – Preparativos para o casório do pai, por Sebastião Nunes

A delação premiada de Pedro Malasartes – Preparativos para o casório do pai

por Sebastião Nunes

A defunta mãe de Malasartes nem tinha dois dias de enterrada quando o pai do bebê, poderoso senador da república, apontou os bugalhos para cima de deliciosa ex-miss, loira de 20 e poucos anos e olhos de ressaca.

Aliás, o bode velho, passado dos 70, cara mais engelhada do que leito de rio sertanejo durante seca braba, já vinha botando olhares lânguidos na donzela casadoira bem antes da defunta sucumbir aos tédios da gravidez e da riqueza inútil.

Aliás, a donzela casadoira, depois de eleita miss, aventurou-se nalguns cursos de voo curto, daqueles que são chamados, no interior, caça-marido.

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A delação premiada de Pedro Malasartes – O nascimento do herói, por Sebastião Nunes

por Sebastião Nunes

Pedro Malasartes é podre de rico.

Fez fortuna, como a maioria dos brasileiros multimilionários, utilizando com liberalidade os costumeiros instrumentos de enriquecimento rápido de nossa elite: chantagem, fraude, corrupção, grilagem, intimidação, estelionato, sonegação, notas frias, troca e venda de favores, extorsão, agiotagem, formação de quadrilha e, quando não havia recurso mais barato, encomendando assassinatos e queimas de arquivo.

Em pesquisas recentes (2016), realizadas por órgãos internacionais, Malasartes foi eleito um dos 100 maiores canalhas brasileiros de todos os tempos.

Desde criancinha revelou inúmeros talentos para o exercício do poder, talentos que o transformaram em um de nossos mais brilhantes homens públicos.

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Diálogo sobre traidores antigos e traidores modernos, por Sebastião Nunes

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Imagem: Reprodução

Por Sebastião Nunes

Cochilando debaixo de um coqueiro numa praia de Itamaracá, Joaquim Silvério dos Reis foi acordado por um galopar furioso.

Ergueu-se de um pulo, agarrando a espada na mão esquerda e a garrucha de dois canos na direita: “O que vier eu traço”, resmungou convicto.

O cavaleiro, descalço e vestido com trapos, chegou esbaforido, saltou do cavalo e aproximou-se de Joaquim Silvério, caindo de joelhos diante dele:

– Me acuda, pelo amor de Deus! Me salva, porque vão me garrotear!

Sem entender nada, o traidor mineiro olhou aquele mulato baixo, troncudo e moço, que implorava socorro.

– Acalme-se, meu amigo – disse ele. – Aqui você não corre perigo algum.

– Tem certeza? – duvidou o recém-chegado. – Olha que essas terras estão mais do que vigiadas. Os portugueses estão por toda parte, armados até os dentes. Leia mais »

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Chico, meu papagaio de estimação, é danado de sabido, por Sebastião Nunes

Chico, meu papagaio de estimação, é danado de sabido

por Sebastião Nunes

Ouvi um toc-toc-toc no vidro da janela e lá estava ele: meu papagaio verde do bico dourado.

Me levantei para abrir e ele entrou, voando lentamente até seu poleiro.

– De onde está vindo, Chico? – perguntei.

– Da ONU – respondeu ele.

– E o que estava fazendo na ONU, Chico?

– Aprendendo como ganhar dinheiro sem fazer nada.

– Ahhh... disse eu.

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O menino Brasil, a menina Brasília, a galinha e o pé de feijão, por Sebastião Nunes

O menino Brasil, a menina Brasília, a galinha e o pé de feijão

por Sebastião Nunes

Sentindo-se à beira da morte, a bondosa mãe reuniu seus dois filhos pequenos e disse, com voz chorosa:

– Meus queridos, sinto que é chegada a hora. Infelizmente, só tenho para deixar-lhes esta galinha, mas é uma galinha muito especial. Cuidem bem dela.

Entregou-lhes a galinha e, estremecendo, esticou as canelas.

Dias depois, o bondoso pai sentiu-se à beira da morte e chamou os filhos:

– Meus queridos, sinto que de hoje não passo. Infelizmente, só posso lhes deixar estes grãos de feijão. Cuidem bem deles, porque são muito especiais.

Entregou-lhes um saquinho, soltou um último suspiro e bateu as botas.

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A proliferação de ratos em Brasília depois do golpe, por Sebastião Nunes

A proliferação de ratos em Brasília depois do golpe

por Sebastião Nunes

– Pedro! – trovejou Deus, quase matando de susto os anjos e os querubins que rodeavam Seu trono.

– Droga – resmungou São Pedro, que jogava porrinha com o arcanjo Gabriel. – Isto aqui já foi mais tranquilo.

Enquanto Gabriel, suspirando, recolhia os palitos e a caixa de fósforos, São Pedro disparou rumo ao trono divino.

– Pois não, Senhor – disse o guardião das chaves celestiais. – Às Suas ordens!

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Um dia na vida conturbada do urubu que tinha o rabo preso, por Sebastião Nunes

Um dia na vida conturbada do urubu que tinha o rabo preso

por Sebastião Nunes

O almoço chegara ao fim. Deliciado, o urubu-rei-do-planalto-central raspava os derradeiros fiapos da carniça que ele e seu bando devoravam. Era uma carniça enorme, fedorenta como ela só. Talvez a carniça da Previdência Social. Quem sabe a carniça da Educação Fundamental. Ou ainda a carniça dos Direitos dos Trabalhadores. Mas que era deliciosa, fosse a carniça que fosse, lá isso era.

Saciado, o urubu-rei-do-planalto-central arrotou. Bocejou. Abriu as longas asas escuras espreguiçando-se com prazer. Apoiou as patas no chão e, bico erguido, lançou-se no espaço azul da manhã que findava.

– Diacho! – resmungou ele, constatando que as asas lhe pesavam que nem chumbo. – Estarei ficando mais velho do que sou? Nunca me pesou tanto o corpo nem jamais tive tanta dificuldade para alçar voo. Alguma coisa está errada.

Virou o bico para trás e viu que, logo ali perto, voava o urubu-secretário-geral-do-planalto-central.

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O nariz de Pinóquio e os narizes dos figurões da república, por Sebastião Nunes

O nariz de Pinóquio e os narizes dos figurões da república

por Sebastião Nunes

Preocupadíssimo, Geppetto se postou diante do espelho mágico e indagou:

– Espelho, espelho meu, haverá nariz mais comprido que o de Pinóquio?

– Ah, ah, ah! – riu-se o espelho da ingenuidade do velho marceneiro. – Só no Brasil, meu caro, existem milhares de narizes mais compridos que o de seu filho.

– Não acredito, seu pedaço de vidro estúpido – irritou-se o velho. – E como eles conseguiram narizes tão compridos?

– Mentindo, uai! – respondeu o espelho à moda mineira. – Não foi colecionando mentiras que o nariz de Pinóquio cresceu tanto?

– Tá danado – resmungou Geppetto, e foi bater na porta do filho.

– Pinóquio, meu filho, abre essa porta. Não adianta nada esgoelar!

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Como foram assassinados os moleques João Huck e Luciano Dória Jr., por Sebastião Nunes

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Foto: Tania Rego/Agência Brasil

Eram gêmeos univitelinos: cara de um, focinho de outro. Nasceram num dia de sol quente na favela do Quebra-Pau – qualquer um sabe onde fica, não sabe?

Na hora de escolher os nomes, o maior fuzuê: a mãe, fanática pelo maridão da Angélica, exigia que um se chamasse Luciano Huck. Já o pai, vidrado no bon-vivant das noitadas paulistanas, não abria mão de João Dória, inclusive com o Jr.

Por que não fizeram assim, um nome chique e midiático para cada um? Não sei: mistérios insondáveis de pobres turrões.

Brigaram de soco, pontapé, beliscão e mordida. Quando a ambulância chegou, chamada pelos vizinhos, gemiam ensanguentados no chão da cafua. Os filhotes? Quase se acabando de tanto esgoelar num colchonete fedorento.

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Como um recém-operado de catarata enxerga a República-das-Bananas, por Sebastião Nunes

Como um recém-operado de catarata enxerga a República-das-Bananas

por Sebastião Nunes

Há cerca de um mês fui operado da porra do olho direito. Nada de dramático: coisa de 30 minutos e estava liberado. Pronto para enxergar o mundo azul? Não. Na República-das-Bananas não tem azul. Nem verde. Nem amarelo. Só cinza.

Durante 15 dias pinguei colírios variados no olho avariado, 15 vezes a cada 24 horas. Voltei ao médico três vezes, até que na última visita receitou óculos novos e mandou voltar seis meses depois para operar a porra do olho esquerdo.

Tudo bem? Não. O mundo continua cinza.

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Marx e Engels visitam Machado de Assis para falar de revolução, por Sebastião Nunes

Imagem: Reprodução

Por Sebastião Nunes

Corria o ano de 1882. Comodamente instalados numa velha otomana, dois alemães esperavam o dono da casa. Acabavam de chegar de Londres.

– Será que vai dar certo? – perguntara o mais velho, antes da viagem.

– Não tenho dúvida – respondeu o mais moço. – Um sujeito que escreveu uma novela como “O alienista” e um romance como “Memórias póstumas de Brás Cubas” deve compreender tudo desse país. Ou quase tudo.

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O Cavaleiro da Triste Figura enfrenta o Cavaleiro da Pavorosa Carranca, por Sebastião Nunes

O Cavaleiro da Triste Figura enfrenta o Cavaleiro da Pavorosa Carranca

por Sebastião Nunes

– Veja como são as coisas, amigo Sancho – dizia Dom Quixote ao escudeiro Sancho Pança, enquanto vagabundavam por terras manchegas. – Aqui estamos em busca de aventuras e ouvi dizer que, em Brasília, um terrível nigromante apronta horríveis traficâncias contra o povo. Creio que devemos confrontá-lo e derrotá-lo em combate justo, para defesa dos ofendidos.

Sancho coçou a barbicha e perguntou:

– E que Brasília é essa, meu senhor?

– Uma espécie de Madri tropical de uma república-banana chamada Brasil, a existir no futuro remoto, habitada por 80% de papagaios e 20% de ladrões.

– Tanto papagaio assim?

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Bob Dylan, quem diria, nasceu cresceu e morreu no Cariri, por Sebastião Nunes

Bob Dylan, quem diria, nasceu cresceu e morreu no Cariri

por Sebastião Nunes

Com a enxada no ombro, o jovem Bob Dylan palmilhava a tórrida estrada que levava ao algodoal raquítico. Suava que nem peba. O sol queimava, os beiços gretados pediam água. A estrada parecia interminável. Para aguentar, começou a entoar a cantiga que andava matutando nas horas de folga:

– Quantas istrada havera um home de parmilhá

Inté qui de home havera de ser chamado

Quantos mar havera uma pomba branca de sobrevuá

Inté pudê na areia drumi...

Cantava e marcava o compasso com os pés descalços. Mal percebeu que estava chegando. Música era bom por isso.

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Vamos começar tudo de novo?, por Sebastião Nunes

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por Sebastião Nunes

Durante milênios, filósofos de todas as correntes, tendências e manias especularam sobre o funcionamento de nosso cérebro.

Ocupará a crueldade um determinado escaninho?

Onde se localiza a prudência?

A capacidade de amar nasce conosco ou é acrescentada mais tarde?

E a alma? Sua origem está no cérebro, no estômago ou no coração?

O que no princípio não passava de sucessivos saltos no escuro aprimorou-se com o tempo e novos e notáveis instrumentos de especulação e pesquisa.

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Machado de Assis e Carolina visitam o MASP num dia festivo, por Sebastião Nunes

Machado de Assis e Carolina visitam o MASP num dia festivo

por Sebastião Nunes

– É, para mim, motivo de especial satisfação inaugurar este magnífico Museu de Arte – arengou a rainha Elizabeth II, em seu discurso de inauguração da nova sede do MASP, em 8 de novembro de 1968. E continuou: – A sua beleza, simplicidade e a perícia com que foi construído tornam-no mais um impressionante exemplo do espírito de iniciativa dos paulistas.

Os convidados aplaudiram com entusiasmo, excelentes puxa-sacos que eram. Todo sorrisos, o príncipe Filipe examinava com prazer as paulistanas bonitas.

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Dois capítulos de “Somos todos assassinos”, minha ficção sobre publicidade, por Sebastião Nunes

Dois capítulos de “Somos todos assassinos”, minha ficção sobre publicidade

por Sebastião Nunes

Enquanto os livros antigos não são reeditados, cato de vez em quando alguns textos que publico como amostra e, sem um pingo de vergonha, certo de sua atualidade nestes tempos de golpe e de golpistas. Hoje são duas páginas do STA.

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Acalanto triste (porém esperançoso) para um país em ruínas, por Sebastião Nunes

Uma releitura brasileira de um dos textos fundamentais da poesia oriental, o “Mantiq ut-tair”

Por Sebastião Nunes

Certo dia, o rei dos pássaros deixou cair uma pena, uma simples pena, bem no centro do maior deserto da Terra.

            Mas era uma pena tão magnífica, de tal forma maravilhosa, que os pássaros que a encontraram, muitos anos depois, não tiveram a menor dúvida: era uma pena de seu rei.

            A descoberta correu de bico em bico e, dentro de mais alguns anos, todos os pássaros do mundo visitaram o deserto e viram, deslumbrados, a primeira prova verdadeira da existência de seu desconhecido rei.       

            Sabiam, por velhas lendas, que o rei dos pássaros tinha construído seu ninho no ponto mais alto da mais alta montanha da Terra.

            Também sabiam, narrado de pais para filhotes, que o nome secreto de seu rei queria dizer “trinta pássaros”.
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O que nos reserva o futuro: como se divertirão nossos filhotes inclames, por Sebastião Nunes

Por Sebaestião Nunes

Continuando minha análise do futuro controlado pelos inclames, eis uma pequena amostra de uma festança entre eles, talvez num clube particular e exclusivo, quem sabe num condomínio fechado. Se não for assim, será quase assim.

O PRAZER DE CHURRASQUEAR

Grupo numeroso de inclames, funcionários de multinacional, costumava reunir-se semanalmente em animadíssimo churrasco. Levavam família toda: consortes e sogros e filhos e pais e avós. Bisavós e cunhados e concunhados e genros. E noras e carros e gatos e cachorros.

As carnes do famoso churrasco eram sorteadas na hora, entre os participantes.

As picanhas (sempre em número de quatro) eram extraídas da bunda de duas das buclames-sogras.

As maminhas, dos peitos de quatro das buclames-avós.

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As novas castas sociais e a vertiginosa ascensão dos inclames, por Sebastião Nunes

As novas castas sociais e a vertiginosa ascensão dos inclames

por Sebastião Nunes

Classe média é um estado de espírito, ao contrário do que pensam sociólogos, economistas, publicitários, juristas, políticos e estatísticos.

            As duas principais características da classe média são consumismo exacerbado e individualismo predador. A união dessas duas características cria o típico estado de espírito inclâmico, voltado para a destruição em massa de ambientes, bens e pessoas, gerando o individuo que denominei inclame.

            Foi o surgimento das grandes cidades que propiciou a amplificação dessas duas características até o grau extremado que se verifica hoje.

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Sexta lei do decálogo da classe média: nosso admirável mundo novo, por Sebastião Nunes

Sexta lei do decálogo da classe média: nosso admirável mundo novo

por Sebastião Nunes

SOMAR NÃO É SUBTRAIR

Tendo absorvido sua porção diária de Soma* um casal de inclames (indivíduos de classe média) perdeu por completo a (sic) tesão**. Sentiram-se então pastosos que nem abacate liquidificado no que se chama vitamina de abacate nos botecos de mauseráveis da zona boêmia do Baixo Meretrício (versão popular do Alto Meretrício, alocado junto aos poderes executivo, legislativo, judiciário e à mídia televisada, oralizada e impressa).

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Três recortes da STA, minha fictícia agência de publicidade, por Sebastião Nunes

Três recortes da STA, minha fictícia agência de publicidade

por Sebastião Nunes

Entre 1980 e 2000 publiquei quatro edições de um livro que me dá saudade. Por conta dessa lembrança boa, e porque “Somos todos assassinos”, satírico e corrosivo, me parece bastante atual, estou preparando uma quinta edição. Cada “capítulo” é estruturado como um anúncio impresso, ocupando uma ou duas páginas no máximo, com título, ilustração e texto, seguindo o padrão da época em jornais e revistas. Reproduzo aqui três dos textos avulsos, ilustrados com um outdoor “patrocinado” pela STA.

 

O PROGRESSO VOCÊ É QUEM FAZ

Vim de Pernambuco sem emprego e sem coragem, mas meu pai era rico e estudei administração de empresas na PUC e doutorei-me nos Estados Unidos.

Voltei dos Estados Unidos magro e desanimado, mas ganhei apartamento no Leblon, cartões de crédito e pequeno carro esporte italiano.

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O Humanismo está morto. Viva o Individualismo à Brasileira!, por Sebastião Nunes

O Humanismo está morto. Viva o Individualismo à Brasileira!

por Sebastião Nunes

Socratião, expulso a vassouradas por Xantipa, reuniu-se na Ágora com seus parças para mais uma sessão de papo furado e bebedeira: Platião, Fedontião, Antistião e Cebestião. Seu maior pobrema (como dizem os mineiros) era compreender os sofismas usados pela Estupidez para virar o país de cabeça para baixo, botando o Individualismo em cima e o Humanismo embaixo. Difícil de entender? Por isso tantos sabichões sebastiúnicos reunidos na Ágora onde, apesar da balbúrdia, era possível pensar. Não dava para pensar era com Xantipa na cola, brandindo aquela horrorosa bassoura (como diziam os antigos) de bruxa malvada.

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O que é uma nação? Servirá o Brasil de exemplo?, por Sebastião Nunes

por Sebastião Nunes

Socratião, reencarnação brasileira de Sócrates, estava sentado de pernas cruzadas e mãos entrelaçadas, à maneira dos iogues. Acabara de voltar da Índia e pegara a mania dos velhos budistas desocupados. Em volta dele, tentando desajeitadamente sentar-se do mesmo jeito, encontravam-se os discípulos Platião (reencarnação de Platão), Fedontião (reencarnação de Fédon), Antistião (reencarnação de Antístenes) e Cebestião (reencarnação de Cebes). Na porta da sala, Xantipa olhava feio para os vagabundos.

 

LIVRO PRIMEIRO

            – O que é uma nação? – indagou o cínico Socratião. – Algum de vocês saberia me explicar o que é uma nação?

            – Eu posso – disse o linguarudo Platião, o aristocrata de ombros largos. – Nação é um enxame de pessoas vivendo em comum por vontade própria.

            – Quer dizer que cada seita evangélica constitui uma nação diferente? – retrucou Socratião. – Não te parece limitada sua definição? Alguém tem sugestão melhor?

            – Nação é uma comunidade estável, guiada por leis comuns – disse Fedontião.

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Novíssima proposta para dividir o Brasil em sete países independentes, por Sebastião Nunes

por Sebastião Nunes

Do jeito que está não pode ficar. Isto aqui está uma zona, ninguém se entende e as coisas tendem a piorar. Assim, proponho que se faça um plebiscito nacional para criar sete países absolutamente independentes, menores e mais administráveis.

            Os novos países serão:

            1) República da Pauliceia Desvairada (capital em São Paulo, abrangendo os  territórios de São Paulo, Paraná e Santa Catarina).

            2) República do Jaburu Maroto (capital em Brasília, abrangendo os territórios de Brasília e Região Metropolitana).

            3) República dos Inconfidentes Saudosistas (capital em Belo Horizonte, abrangendo os territórios de Minas Gerais, Goiás e metade do Espírito Santo).

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Dos males que a modernidade líquida provoca, por Sebastiao Nunes

Minha vida sem meu celular ou: Dos males que a modernidade líquida provoca

Por Sebastiao Nunes

O cara encostou o berro na minha cara e disse:

        – O celular ou tá morto!

        – Tô morto – respondi pro cara, abrindo a camisa e exibindo o peito magro.

        Sem nem olhar pra minha cara, o cara mandou uma porrada na minha cabeça com o cabo do berro.

        Caí vendo estrelinhas, como mandavam os quadrinhos antigos. Estrebuchei, como relatam os BO da vida. Cumprido o ritual da babaquice, apaguei.

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Serão os portugueses totalmente responsáveis pelo nosso fracasso como nação?, por Sebastião Nunes

Serão os portugueses totalmente responsáveis pelo nosso fracasso como nação?

por Sebastião Nunes

A atriz norte-americana Carrie Fisher morreu quatro dias depois de sofrer ataque cardíaco num voo entre Londres e Los Angeles. Ela voltava de uma turnê promocional de seu oitavo livro. Misto de atriz e escritora, filha da também famosa Debbie Reynolds, integrava a rede midiática dos EUA que transforma filmes em livros e vice-versa, além de outros produtos de venda garantida. Resultado: milhões de dólares em caixa.

        O primeiro texto que li de Gabriel García Márquez foi um conto em inglês no New York Times Book Review anterior a 1978, sendo que ele só ganhou o Prêmio Nobel em 1982, pelo menos quatro anos depois de se tornar conhecido em inglês. Digamos que já pavimentava sua estrada rumo a Estocolmo.

        Este ano foi a vez de Bob Dylan receber sem ir buscar – esnobando um pouco a ilustre academia sueca –, premiação que seria motivo de polêmicas intermináveis sobre os limites entre poesia e canção popular, caso houvesse ele nascido, por exemplo, num país periférico como o Brasil. Ou profundamente livresco, como a França.

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Quem diria, o crioulo Lima Barreto será banqueteado na FLIP 2017, por Sebastião Nunes

por Sebastião Nunes

Pobre literatura brasileira! É preciso que os autores morram para que mereçam a honra de prato principal nos festejos da classe média. Ganham, estripando a pobre criatura, os editores alvoroçados, os herdeiros abençoados e, favorecendo a gastança multiusuária, a classe média deslumbrada, que não perde festa. Vejamos como se banqueteou recentemente na FLIP, seguindo a lição do primeiro na lista dos comidos, que defendia a deglutição antropofágica.

        Em 2011, subiu à churrasqueira de Paraty o indomável Oswald de Andrade, para júbilo de seus banqueteadores post-mortem. Gordinho, deve ter sido uma delícia.

        Em 2012, foi a vez de Carlos Drummond de Andrade, só osso e pelanca, que nem ao menos atendeu aos cantos das sereias da Academia Brasileira de Letras.

        Em 2013, assaram na brasa a carne-seca do Velho Graça, que bebia aguardente e detestava puxação de saco. Banquete de muxibas enfezadas.

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João, o garoto perfeito ou João, o garoto imperfeito ou João, o garoto ambíguo ou...

João, o garoto perfeito ou João, o garoto imperfeito ou João, o garoto ambíguo ou...

por Sebastião Nunes

O livro JOÃO foi escrito em 1997 e publicado em 2007.

        Levei um dia para escrever o texto e 10 anos para decidir publicá-lo. É um texto de que gosto bastante, embora nunca tenha percebido muito bem seu significado, o que não chega a ser novidade entre poetas e escritores de ficção.

        De meus livros para crianças e jovens – em torno de uma dúzia – é talvez o mais bem estruturado, junto com “O inventor do xadrez” e “O rei dos pássaros”.

        Os dois primeiros leitores, logo que acabei de escrever, foram minhas filhas Flávia e Juliana, então com 12 e 10 anos respectivamente – que ficaram horrorizadas. Talvez por isso eu tenha demorado tanto para editá-lo.

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