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Blog de Rodrigo Medeiros

A crise estrutural no Estado do Espírito Santo, por Rodrigo Medeiros

A crise estrutural no Estado do Espírito Santo

Por Rodrigo Medeiros*

Tendo acumulado passivos sociais e ambientais, o Estado do Espírito Santo precisa repensar os caminhos do seu desenvolvimento. A grave crise da segurança pública capixaba, que estourou em fevereiro, sinalizou para o fato de que devemos estar bem atentos para os problemas estruturais acumulados. Nesse sentido, diálogo, debate plural e responsabilidade social ganham um grande destaque na articulação de políticas públicas.

O documento construído pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o “Atlas da Violência 2017”, mostrou que o Espírito Santo conseguiu reduzir sua taxa de homicídios entre 2005 e 2015, em 21,5%. Essa taxa, de 36,9 por 100 mil habitantes, ainda está acima da ruim média brasileira, que é de 28,9 por 100 mil habitantes. Esse dramático quadro é considerado como de guerra civil pelos especialistas no assunto. Portanto, não deveria causar espanto que a produtividade da economia não cresça nesse contexto de violência e que as instituições funcionem insatisfatoriamente (aqui).

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Obras paradas no Estado do Espírito Santo, por Rodrigo Medeiros

Obras paradas no Estado do Espírito Santo

por Rodrigo Medeiros

A partir da base de dados Geo-Obras, do Tribunal de Contas do Estado do Espírito Santo, A Gazeta tem feito relevantes levantamentos sobre a quantidade de obras públicas paradas e os prejuízos decorrentes para os cofres públicos capixabas. Tais levantamentos sinalizam para o fato de que é preciso melhorar a qualidade da gestão pública em terras capixabas, do planejamento até a execução do gasto público.

Em um levantamento publicado em julho, consta na página digital do G1 que “a paralisação de obras públicas no Espírito Santo soma R$ 1,6 bilhão em prejuízos ao Estado e aos municípios” (aqui). Como resultado prático, o custo de algumas obras pode até dobrar em relação ao orçamento inicial previsto. Há quem prefira contemporizar, alegando que esses problemas derivam da burocracia excessiva e de “paralizações por rescisão contratual”. Riscos e incertezas fazem parte de qualquer atividade humana. A gestão pública precisa aprender a lidar melhor com isso no Brasil.

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Responsabilidade social: reflexões sobre o caso capixaba, por Rodrigo Medeiros

Responsabilidade social: reflexões sobre o caso capixaba, por Rodrigo Medeiros

O documento construído pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) merece maior reflexão entre nós. O “Atlas da Violência 2017” traz informações relevantes para a formulação de políticas públicas que prezem pela responsabilidade social. A publicação adota os dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, que traz informações sobre incidentes até ano de 2015. O dramático episódio da crise da segurança pública capixaba, de fevereiro deste ano, é citado como um exemplo da fragilidade das políticas públicas nesse campo.

O Espírito Santo conseguiu reduzir a sua taxa de homicídios entre 2005 e 2015, em 21,5%. No entanto, essa taxa, de 36,9 por 100 mil habitantes, está acima da ruim média brasileira, que é de 28,9 por 100 mil habitantes. Esse dramático quadro é considerado como de guerra civil pelos especialistas no assunto. Portanto, não deveria causar espanto que a produtividade sistêmica da economia brasileira não cresça nesse contexto de violência e tampouco que as instituições funcionem mal.

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Retrocessos em curso no Brasil?, por Rodrigo Medeiros

Retrocessos em curso no Brasil?

por Rodrigo Medeiros

O processo brasileiro de desindustrialização prematura, compreendido como as perdas relativas de empregos da indústria de transformação e de sua participação no Produto Interno Bruto (PIB), é claro desde meados dos anos 1980. A partir de 1994, com o recorrente uso do câmbio para combater a inflação, vem ocorrendo a perda de sofisticação da pauta exportadora.

No livro de Erik Reinert, “Como os países ricos ficaram ricos... e por que os países pobres continuam pobres”, editado pela Contraponto, há instigante discussão sobre o processo histórico de desenvolvimento. Cobrindo um período de cerca de quinhentos anos de reflexões e estudos econômicos, Reinert sintetiza: “países pobres tendem a se especializar em atividades que os países ricos não podem mais automatizar ou nas quais não há possibilidade de realizar inovações. Em seguida são criticados por não inovarem o bastante”. O aprofundamento da globalização neoliberal é ruim para os países de renda média, pois os impedem de emparelhar com os países desenvolvidos.

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Complexidade econômica e desenvolvimento, por Rodrigo Medeiros

Complexidade econômica e desenvolvimento

por Rodrigo Medeiros

Lançado recentemente pela editora Contraponto e pelo Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento, o livro “Complexidade econômica”, de Paulo Gala (FGV-EESP), descreve, a partir de relevantes referências bibliográficas e inovação metodológica, o processo de desenvolvimento. Destaca-se o “Atlas da complexidade econômica” como valiosa ferramenta para o entendimento da riqueza das nações. 

Disponível online para consultas, o “Atlas da complexidade econômica”, de César Hidalgo (MIT) e Ricardo Hausmann (Harvard), usa o big data e a ciência das redes para mostrar como aquilo que um país efetivamente exporta é relevante na determinação da renda média e do nível de desigualdade doméstica (aqui). Em síntese, o avanço da complexidade econômica, compreendida como a diversidade exportadora ponderada pela não ubiquidade, gera desenvolvimento, alta produtividade e ainda está fortemente correlacionado com menores desigualdades sociais.

A estrutura produtiva determina as possibilidades de produtividade e desenvolvimento em um país. Segundo afirma Gala, “não há caminho possível para o desenvolvimento econômico sem que se busque sofisticar o tecido produtivo. Todos os países ricos são complexos e sofisticados e todos os países pobres são não complexos e não sofisticados”.

Entre os fatores que ajudam a construir complexidade, destaca-se o nível do câmbio real. De acordo com Gala, “o nível de câmbio real tem papel fundamental na dinâmica macroeconômica de longo prazo, pois influi na determinação da especialização setorial da economia, notadamente no que diz respeito à indústria e à produção de bens complexos”. O câmbio tem efeito na dinâmica da produtividade e na viabilização do avanço da complexidade econômica.

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Incertezas no horizonte, por Rodrigo Medeiros

Incertezas no horizonte, por Rodrigo Medeiros

Entre os mais recentes lançamentos do mercado editorial brasileiro, merece destaque o livro “A era do imprevisto” (Companhia das Letras, 2017), do sociólogo e cientista político Sérgio Abranches. O livro, escrito em forma de ensaio, traz instigantes reflexões sobre as diversas dimensões da crise global. As incertezas dos resultados não devem imobilizar as sociedades.

Do ponto de vista das muitas imprevisibilidades, Abranches destaca as “falhas” nos paradigmas econômicos vigentes. Segundo pondera o autor, “na economia, os modelos de previsão, tanto acadêmicos quanto do mercado financeiro, têm errado muito mais que acertado”. Há problemas nas premissas dos modelos que estão baseados em automatismos de equilíbrio geral. Em um tempo global marcado pela crescente complexidade, quando as interações são mais intensas e o seu número maior, a estabilidade dos sistemas socioeconômicos não é garantida.

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Dia Internacional dos Trabalhadores, por Rodrigo Medeiros

Enviado por Rodrigo Medeiros

A nova edição da pesquisa Barômetro Político, realizada pela consultoria Ipsos, aponta que 75% dos entrevistados classificaram como ruim ou péssimo o governo federal e apenas 4% disseram ser esse um governo ótimo ou bom; 92% veem País no rumo errado. Nesse complexo contexto de desconfiança generalizada nas instituições e de crise de representação política, algumas questões presentes na Greve Geral do dia 28 de abril e no Primeiro de Maio merecem maior reflexão.

Relendo o capítulo 17 do clássico “História da riqueza do homem”, de Leo Huberman, destaco a seguinte passagem: “os economistas da época da Revolução Industrial desenvolveram uma série de leis que, diziam, eram tão válidas para o mundo social e econômico como as leis dos cientistas para o mundo físico”. Portanto, completa Huberman, “se os homens fossem inteligentes e agissem de acordo com os princípios que expunham, muito bem; mas se não, e agissem sem respeito às suas leis naturais, sofreriam as consequências”. No geral, é possível dizer que essas supostas “leis naturais” representaram boas notícias para os mais abastados porque os pobres eram responsabilizados pela sua pobreza.

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Ganhando impulso?, por Rodrigo Medeiros

Foto - Divulgação

Ganhando impulso?, por Rodrigo Medeiros

Recentemente, o Fundo Monetário Internacional (FMI) revisou suas estimativas de desempenho da economia mundial. Consta no seu “World Economic Outlook”, tornado público no dia 18 de abril, que há uma recuperação cíclica em curso na economia mundial. As estimativas apontam para o crescimento global de 3,5% em 2017 e 3,6% em 2018. Entretanto, riscos diversos existem no horizonte. A hipótese da “estagnação secular” não foi afastada.

Segundo apontou o FMI, com problemas estruturais persistentes, como o baixo desempenho da produtividade e alta desigualdade social de renda, as pressões por políticas voltadas para o "interior" estão aumentando nas economias avançadas. Essas pressões domésticas, por sua vez, representam ameaças potenciais a uma integração econômica global cooperativa. Tensões geopolíticas também preocupam.

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Recessão e austeridade, por Rodrigo Medeiros

Recessão e austeridade, por Rodrigo Medeiros

Após a grande crise financeira de 1929, a década que se seguiu foi de preciosas lições para muitos estudiosos de diversos campos. De certa maneira, revivemos certos aspectos daqueles dilemas com o estouro da crise global de 2008, após a queda do Lehman Brothers. A resposta inicial conjunta de muitos países à crise foi no sentido de manter o nível da demanda agregada e evitar os efeitos adversos nos empregos e na produção.

Pouco tempo depois, iniciou-se um processo de forte “marcação” dos agentes financeiros sobre o avanço das dívidas públicas dos países e vivenciamos, desde então, o mantra da austeridade fiscal. Estamos repetindo o debate econômico da década de 1930 e ainda presenciando a emergência de extremistas e populismos. O desemprego elevado e persistente, a desesperança coletiva no futuro, as elevadas desigualdades e a irresponsabilidade social dos governos conspiram contra a democracia. Devemos, portanto, nos preocupar no Brasil. 

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Voos de galinha, por Rodrigo Medeiros

Voos de galinha, por Rodrigo Medeiros

O debate sobre o “fôlego” da economia brasileira encontra-se na ordem do dia. Desde o início da recessão, a partir do segundo trimestre de 2014, muitas visões sobre a crise foram publicadas. Divergências, quando se trata de fenômenos complexos, são naturais, saudáveis e bem-vindas. Essa discussão é muito relevante quando buscamos debater reformas institucionais.

Em um instigante artigo publicado na “Finance & Development”, de junho de 2016, Jonathan D. Ostry, Prakash Loungani, e Davide Furceri, todos do Departamento de Pesquisa do Fundo Monetário Internacional (FMI), trazem reflexões sobre o neoliberalismo (aqui). Para os respectivos pesquisadores, “em vez de gerar crescimento, algumas políticas neoliberais aumentaram a desigualdade, comprometendo a expansão duradoura”. A agenda neoliberal se apoia sobre dois pilares básicos: a desregulamentação de mercados e a limitação da capacidade dos governos de gerir déficits fiscais e acumular dívidas.

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O debate das reformas e a desigualdade social, por Rodrigo Medeiros

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Por Rodrigo Medeiros

Um necessário debate qualificado sobre as reformas institucionais propostas precisa ser aprofundado. Em um país no qual a desconfiança social generalizada nas instituições é alta, a aceleração do processo de discussão parlamentar não contribui para a pacificação política nacional. Nesse sentido, algumas reflexões publicadas são muito oportunas. Afinal, a "fada da confiança" não conseguiu empreender a mágica da virada na economia brasileira.

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O progresso social em risco no Brasil, por Rodrigo Medeiros

O progresso social em risco no Brasil

por Rodrigo Medeiros

Desde o segundo semestre de 2014, quando começamos a sentir os efeitos da recessão, o clima social vem mudando no Brasil. Sondagens recentes apontam para o fato de que o otimismo de então tem dado lugar ao pessimismo. Afinal, haveria alguma base para tanto pessimismo? Creio que o tom das reformas institucionais propostas explica parte dessa virada de clima social.

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A crise na segurança pública capixaba, por Rodrigo Medeiros

A crise na segurança pública capixaba

por Rodrigo Medeiros

O fenômeno global da crise se manifesta de forma geográfica diferenciada. Em “Estado de crise” (2014), o sociólogo Zygmunt Bauman disse que estamos sob o domínio das brumas da incerteza, na medida em que os cidadãos acreditam cada vez menos que os governos sejam capazes de cumprir suas promessas. No interregno, o novo não consegue nascer porque o velho não morreu completamente.

A proximidade da crise, que repercute nas angústias das pessoas, deve ser objeto de cuidados no campo analítico. Não discutirei o mérito do movimento dos policiais militares. Compreendo que a busca do diálogo para melhorar as condições gerais de trabalho faz parte da democracia, porém há responsabilidades quando um profissional assume determinados compromissos de carreira. Esse episódio traumático deve ser analisado com responsabilidade para o aprendizado.

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Pós-verdade, direita populista e globalização, por Rodrigo Medeiros

Pós-verdade, direita populista e globalização

por Rodrigo Medeiros

Muitos veículos de comunicação social abordaram bem recentemente a pós-verdade, ou seja, as circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes na opinião pública do que as emoções e as crenças pessoais. A ascensão de uma direita populista tem a ver com esse complexo tempo. Vejamos então parte dos perigos que corremos.

Na década de 1990, o sociólogo Anthony Giddens havia alertado para o fato de que as tradições poderiam ser radicalizadas e falar mais alto em algum momento. Tal fato colocaria em risco o projeto em curso de globalização. Ele não foi uma voz isolada naquela década. O economista Dani Rodrik, por outros ângulos, compreendia haver o risco de que o crescente hiato da desigualdade social nos países colocasse em xeque o processo de mundialização.

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Um falso dilema: curto x longo prazo, por Rodrigo Medeiros

Um falso dilema: curto x longo prazo

por Rodrigo Medeiros

No final de 2016, o Brasil se deu efetivamente conta de que a rápida recuperação econômica prometida por alguns não se concretizaria. A persistente recessão, os incômodos do desemprego crescente e uma alta inflação de serviços conspiraram contra as expectativas otimistas de então. Tais fatos colocaram pressão sobre os agentes políticos, em um complexo contexto de incertezas da operação Lava Jato.

A “Carta de Conjuntura”, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, traz, neste janeiro, instigantes reflexões de Luiz Guilherme Schymura. Segundo ponderou o economista, “as projeções de mercado para o crescimento em 2017 caíram de 1,4% em setembro para 0,6% em dezembro. Considerando-se que a trajetória do desemprego, que já atingiu 11,8% em outubro, é defasada em relação à atividade, criou-se uma situação em que os custos sociais e políticos da grande recessão tornaram-se quase insuportáveis”.

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2017 em perspectiva, por Rodrigo Medeiros

2017 em perspectiva

por Rodrigo Medeiros

Recentes pesquisas de opinião revelam que houve uma deterioração da confiança dos brasileiros no futuro próximo. De acordo com o instituto Ipsos, 60% disseram que estão preocupados e 89% acreditam que o Brasil está no rumo errado. Essa pesquisa foi divulgada no dia 8 de dezembro, antes, portanto, de se tornar pública a delação do ex-diretor da Odebrecht.

O diretor do Ipsos, Danilo Cersosimo, afirmou que “a desaprovação aos políticos, de um modo geral, continua alta, bem como a desaprovação à figura do presidente Michel Temer e a sua gestão”. Um levantamento do Datafolha, realizado entre 7 e 8 de dezembro, mostrou que a percepção da população sobre a economia se deteriorou. O aumento do desemprego é esperado por 67% e 59% opinaram que irá diminuir o poder de compra.

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Ideias e desenvolvimento em tempos de crise, por Rodrigo Medeiros

por Rodrigo Medeiros

Desde as reflexões do senador romano Cícero (106–43 a.C), “historia magistra vitae”, até a contemporaneidade, colocou-se em xeque a capacidade humana de aprendizado. O marquês de Condorcet (1743-1794), por exemplo, expressou o intento de se buscar unificar a metodologia das ciências naturais com as das ciências sociais, condição fundamental para que estas conquistassem a previsibilidade que havia feito o prestígio das primeiras. Segundo ponderou o marquês então, “se o homem pode predizer, com segurança quase total, os fenômenos cujas leis conhece; se, mesmo quando as desconhece, pode, com base na experiência do passado, prever, com uma grande probabilidade, os acontecimentos do futuro; por que encarar como uma empresa quimérica traçar, com alguma verossimilhança, o quadro dos destinos futuros da espécie humana, segundo os resultados da sua história? [1]”

Fazer essa discussão não é uma tarefa fácil, pois o debate de ideias e narrativas é complexo e ele costuma estar imerso em relações de interesses e preferências. Afinal, as ideias raramente são neutras e elas podem muito bem entrar em choque com as relações de poder estabelecidas. Buscar as origens dessa discussão nacional não é objetivo deste texto. No entanto, há certos momentos que marcam a história de um país. Em 1900, o liberal Joaquim Nabuco acertou ao afirmar que "a escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil". O trabalho escravo ainda é uma triste realidade que pode ser encontrada em nosso país, apesar de ser ilegal. Na campanha abolicionista, Nabuco disse: “Se isso [a escravidão] ofende o estrangeiro, como não humilha o brasileiro?” O fenômeno das “ideias fora do lugar”, importadas e deslocadas de contextos, foi analisado por Roberto Schwarz nos anos 1970.

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Ajuste, desindustrialização e (sub)desenvolvimento, por Rodrigo Medeiros

Ajuste, desindustrialização e (sub)desenvolvimento

por Rodrigo Medeiros

Desde o fim de 2014, o viés contracionista do ajuste macroeconômico brasileiro buscou oferecer a perspectiva de uma rápida recuperação da confiança dos agentes econômicos através de uma espécie de “austeridade expansionista” tão criticada por Krugman, Stiglitz e outros conhecidos economistas que consideram a importância dos multiplicadores fiscais. O choque contracionista de 2015, por sua vez, provocou um rápido ajuste das contas externas e mesmo assim a economia brasileira afundou em consonância com a gravidade da crise política.

Mais recentemente, o insuficiente debate sobre a Proposta de Emenda Constitucional de número 55/2016 (PEC 55), que busca criar um teto para o avanço dos gastos primários em vinte anos, dividiu opiniões. Em setembro deste ano, a nota técnica de número 28 divulgada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), assinada por Fabiola Vieira e Rodrigo Benevides, apontou que o ajuste focado nas despesas primárias afetará dramaticamente as políticas sociais. O boletim legislativo de número 53 do Núcleo de Estudos e Pesquisas da Consultoria Legislativa do Senado, assinado por Ronaldo Jorge Araujo Vieira Junior, em novembro, identificou inconstitucionalidades na proposta do teto de gastos conhecida como “Novo Regime Fiscal”. Um ajuste fiscal não precisa ficar restrito ao controle dos gastos públicos, ainda que ele seja necessário para muitos casos. Nosso sistema tributário já é bem conhecido pelo seu caráter regressivo, concentrador de renda e riquezas e, conforme aponta o Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional, com base nos dados da Receita Federal, a sonegação fiscal é da ordem anual de 10% do PIB. Entram nessa conta valores que deveriam ter sido recolhidos nas esferas federal, estadual e municipal, e que são embolsados por algumas firmas.

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PEC 241, algumas observações, por Rodrigo Medeiros

PEC 241, algumas observações

por Rodrigo Medeiros

O insuficiente debate sobre a PEC 241/2016, que busca criar um teto para o avanço dos gastos primários, vem dividindo opiniões em nosso país. Estudo do Ipea, por exemplo, apontou que o ajuste focado nas despesas primárias "afeta particularmente as políticas sociais" [1]. Alguns avaliam que esse teto alavancaria a confiança dos agentes econômicos. Confiança esta que vem até melhorando, segundo apontam as sondagens, mas que não está aparecendo nos resultados dos setores acompanhados.

Um crescimento puxado pelas exportações líquidas parece ser algo bem problemático no curto e médio prazo por conta da reprimarização das exportações brasileiras, a perda de complexidade exportadora, e das muitas dificuldades em deslocar competidores industriais de mercados. O cenário global de estagnação secular, de um “novo medíocre” em termos de perspectivas de crescimento, não ajuda a nossa rápida retomada. A desindustrialização precoce brasileira tampouco ajuda e ela está correlacionada com a baixa produtividade dos serviços, uma das persistentes fontes inflacionárias em nosso país.

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(Sub)desenvolvimento e (des)industrialização, por Rodrigo Medeiros

por Rodrigo Medeiros

A relação entre industrialização e o processo de desenvolvimento socioeconômico dos países é conhecida desde o advento da Revolução Industrial. Esse processo complexo e não linear inclui o crescimento relativo do setor de serviços nos empregos totais e no produto. Mais recentemente, o fenômeno da desindustrialização tem sido objeto de maiores debates.

Uma matéria da BBC apontou que “promissora na década de 1980, a indústria brasileira entrou em declínio e hoje representa apenas pouco mais de 10% do Produto Interno Bruto do país” [1]. A sua perda de participação no PIB desde meados dos anos 1980 é citada na respectiva matéria como uma desindustrialização precoce, segundo a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad, em inglês). Esse fenômeno foi observado na América Latina, mas o Brasil se destacou negativamente.

A desindustrialização é considerada precoce pela Unctad “quando uma economia não chega a atingir toda sua potencialidade produtiva manufatureira e, em vez de evoluir em direção à indústria de serviços com alto valor agregado - setor terciário -, regride para a agricultura ou cai na informalidade”. Na avaliação da Unctad, que consta na matéria da BBC, o processo teve início com os choques econômicos vividos nos anos 1980, intensificando-se com a abertura comercial no começo dos anos 1990, seguido pelo abandono das políticas desenvolvimentistas e pelo emprego da taxa de câmbio como ferramenta no combate à inflação. O ciclo de boom das commodities adicionou ilusões às perspectivas de desenvolvimento regional na América Latina.

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Indústria e desenvolvimento, por Rodrigo Medeiros

por Rodrigo Medeiros

Na edição de número 749, a Carta do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) traz informações relevantes da Organização de Desenvolvimento Industrial das Nações Unidas (Unido). Esses números colocam em evidência a perigosa desindustrialização que vem ocorrendo no Brasil.

Segundo ponderou o Iedi, “mesmo diante de tantos reveses e de efeitos tão adversos de políticas executadas nas últimas décadas, a exemplo da política cambial, o fato é que o Brasil ainda tem presença no mapa industrial mundial, figurando entre as maiores indústrias do planeta” [1]. Para 2015, os países desenvolvidos representavam 56,4% do valor adicionado global e as economias emergentes 39,1%, sendo que a China resonde por 23,8% no grupo. Os dados citados mostram que houve desindustrialização relativa nos países desenvolvidos. 

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Os delicados e incertos rumos da economia, por Rodrigo Medeiros

por Rodrigo Medeiros

As análises e os indicadores publicados recentemente apontam para um momento econômico global muito delicado. Os complexos desdobramentos do crash de setembro de 2008 ainda estão presentes e os países os sentem de formas distintas. No que diz respeito ao aprofundamento da recessão brasileira, agravado pela extensão da crise política, esses indicadores, que revelam ainda uma contração na produção de bens e serviços, sugerem dificuldades para uma retomada vigorosa e rápida no crescimento.

Em uma matéria na “Folha de S.Paulo”, assinada por Érica Fraga e Mariana Carneiro, esse debate foi bem contemplado. A matéria afirma que “o Brasil está deixando a crise para trás, mas indicadores sugerem que o ritmo da retomada será lento. Analistas do mercado financeiro preveem que a recessão deverá terminar neste segundo semestre, e o País poderá voltar a crescer em 2017” [1]. Por outros ângulos venho escrevendo sobre essa questão.

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Os descontentamentos da globalização e os “novos” desafios econômicos

Por Rodrigo Medeiros

Em 1997, Dani Rodrik, professor da Universidade de Harvard, publicou um livro cujo título é “A globalização foi longe demais?”. Desde então, já havia uma percepção generalizada de que as desigualdades de renda e patrimônio eram crescentes em muitos países e que tal fato poderia colocar em risco a estabilidade democrática dessas sociedades. Pouco tempo depois, Rodrik desenvolveu o “trilema” (teorema da impossibilidade), que sustenta que democracia, soberania nacional e integração econômica global são mutuamente incompatíveis; podemos combinar duas dimensões, mas nunca todas as três simultaneamente e completamente.

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O estado geral da economia brasileira e suas perspectivas, por Rodrigo Medeiros

Por Rodrigo Medeiros

Pesquisas e indicadores divulgados recentemente apontam para o fato de que a economia brasileira encontra-se no terreno da contração. Do ponto de vista da persistência inflacionária, é preciso dizer que a inflação não é de demanda. Essa inflação derivou de um choque tarifário de energia e de seus efeitos de difusão pela economia em 2015. Outro aspecto inflacionário que deve ser citado foi a combinação da acomodação de trabalhadores ao longo do boom das commodities em atividades econômicas de baixa produtividade com a desindustrialização prematura da economia brasileira.

O fim do superciclo global das commodities e a forte queda dos seus preços internacionais desde meados de 2014 expôs efetivamente a grande fragilidade do “modelo” brasileiro. Recente levantamento da Markit, de abril, revela o quadro do delicado momento contracionista da nossa economia.

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A abolição da escravidão e o tempo presente, por Rodrigo Medeiros

por Rodrigo Medeiros

Em tempos de grande perplexidade política, a revista “The Economist”, em sua edição de 23 de abril de 2016, apontou para as muitas heranças que o Brasil não discutiu adequadamente.  Na matéria destacada na sua capa consta que “não há atalhos para resolver os problemas. As raízes da disfunção política do Brasil podem ser enxergadas na economia baseada no trabalho escravo do século XIX, na ditadura ocorrida no século XX e em um sistema eleitoral viciado em campanhas ruinosamente caras e que protegem os políticos da prestação de contas” (tradução livre).  Vejamos então alguns poucos aspectos dessas questões.

O modelo brasileiro de transição do regime militar para a Nova República converge, em certos aspectos, para a experiência espanhola do Pacto de Moncloa (1977). Tratou-se de algo positivo uma anistia política ampla, porém faltou permitir uma maior investigação histórica que fizesse a sociedade refletir e aprender com o passado. Em certa medida, alguns grupos seguiram com astúcia o personagem aristocrata Tancredi Falconieri do clássico de Lampedusa (1956): “A não ser que nos salvemos, dando-nos as mãos agora, eles nos submeterão à República. Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude”. Os aspectos histórico-estruturais do subdesenvolvimento não foram vencidos entre nós.

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O saneamento básico como oportunidade de retomada do crescimento

Segundo consta no Estadão, em matéria assinada por Fábio Leite (clique aqui), a metade das residências brasileiras não tem coleta de esgoto. Em relação ao esgoto tratado, apenas 41% das residências são atendidas. Esses números são do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), divulgados pelo Ministério das Cidades.

Em um momento político delicado da nossa história no qual se busca uma fonte capaz de gerar perspectivas de crescimento no curto prazo, os investimentos públicos em saneamento básico representam uma grande oportunidade. Proponho alguns pontos para reflexão em um programa de efeito no curto prazo:

1. É preciso construir as condições para que as construtoras enroladas na Lava Jato possam receber uma pena alternativa, de modo que devolvam com trabalho no campo do saneamento básico os prejuízos financeiros que causaram à sociedade brasileira.    Leia mais »

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Desindustrialização, histerese e o complexo debate das contas públicas

Por Rodrigo Medeiros

Tema que vem merecendo um bom destaque na imprensa é o debate das contas públicas e suas relações com a evolução da economia brasileira. Desde o fim da eleição de 2014, já havia a expectativa de um ajuste a ser realizado. Para que a confiança do mercado financeiro estivesse presente ao longo do processo, o governo trouxe uma figura de respeito desse setor para integrar a nova equipe econômica. O viés contracionista do ajuste macro buscava oferecer a perspectiva de uma rápida recuperação da “confiança”, através de uma espécie de “austeridade expansionista” tão criticada por Krugman, Stiglitz e outros que consideram a importância dos multiplicadores fiscais.

Desde o início do processo que visava a “recuperação” da confiança na economia, não acreditei que seria algo tão rápido e fácil. Afinal, desde meados de 2014, os preços internacionais das commodities, que representam aproximadamente dois terços das exportações brasileiras, caíram fortemente e tal fato impactaria negativamente na nossa economia em uns 2% do PIB (pelo método do multiplicador da base exportadora). Algum tempo depois, o Ministério da Fazenda divulgou uma estimativa de que a operação Lava Jato levaria outros 2% do PIB por conta da paralisação de investimentos e projetos. Essas questões afetaram adversamente as receitas públicas em nosso país, inclusive o potencial de crescimento da relação dívida/PIB em uma recessão aprofundada.

A economia brasileira vinha deslizando para baixo desde 2011 e já era possível notar que o governo federal tentava "esticar a situação anterior" a partir de 2012 com algumas medidas que hoje são tão criticadas, mas que foram apresentadas pelo empresariado então (as desonerações fiscais e a queda dos preços de energia elétrica, por exemplo). 

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Globalização e desigualdades, por Rodrigo Medeiros

Por Rodrigo Medeiros

A mais recente divulgação internacional de números que demonstram uma escandalosa escala de concentração de renda e riqueza nas mãos de poucas pessoas merece maiores considerações entre nós. Desde a grande repercussão global da publicação do trabalho de Thomas Piketty, em 2013, o debate sobre as desigualdades socioeconômicas disfuncionais entrou em outro patamar. Paul Krugman, por sua vez, sugeriu bem antes que “qualquer ideologia cuja principal prescrição consista em reduzir os tributos incidentes para os ricos provavelmente desfrutará de sobrevida prolongada” (em “Globalização e globobagens”. Campus, 1999). Vejamos então alguns poucos aspectos gerais dessa discussão.

A fórmula que busca resumir as instigantes reflexões de Piketty é a seguinte: r > g (r é o retorno médio do capital; g é o crescimento da economia). Quando essa diferença é grande por muito tempo, as desigualdades podem ser consideradas como disfuncionais do ponto de vista social. Como os mais ricos têm uma maior propensão a poupar, já se mostrou algo muito comum “a retirada” de recursos financeiros da economia produtiva para o exercício da preferência pela liquidez por uma parcela minoritária da sociedade. Um excesso de poupança (“savings glut”) da parte de poucos indivíduos, quando a concentração da renda é bastante elevada, pode jogar a economia em uma recessão prolongada. Até pesquisadores do Fundo Monetário Internacional, Jonathan D. Ostry e Andrew Berg (em “iMFdirect”, 26/02/2014), por exemplo, apontaram para o fato de que desigualdades excessivas podem minar o crescimento em um país.

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O aprofundamento da crise: da recessão à depressão?, por Rodrigo Medeiros

Por Rodrigo Medeiros

Desde o início deste ano já era possível prever que o ajuste macroeconômico pretendido dificilmente atingiria o objetivo desejado (clique aqui 1; clique aqui 2). A grave crise política prejudicou o clima no País, porém não seria mesmo possível retomar a confiança dos agentes econômicos na economia rapidamente porque a contração macroeconômica não contaria com a demanda externa desta vez.

O jornal “El País Brasil” (24/10/2015) publicou uma matéria sobre a crise na América Latina, citando como o Brasil, a Colômbia, o Peru e o Chile amargam déficit nas contas públicas com o fim da festa das commodities. Na matéria constam diagnósticos. Para Ricardo Caballero (MIT), por exemplo, “tivemos um episódio daquilo que se conhece como doença holandesa. Quando o preço e a produção de um bem de exportação sobem muito, as matérias-primas em nosso caso, geralmente elas arruínam o resto do setor exportador, por causa de uma valorização sustentada da taxa de câmbio”. Segundo o colombiano José Antonio Ocampo, da Universidade Columbia, “o quinquênio de crescimento excepcional, que vai de 2004 a 2008”, deve muito “a uma espécie de alinhamento dos astros”. Logo adiante, ele completa: “A desindustrialização foi excessiva, o investimento em tecnologia muito baixo, e há muito por fazer até obter uma educação de qualidade, um setor público eficaz, e uma melhora na infraestrutura que potencialize o crescimento”.

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Perspectivas de estagnação na América Latina, por Rodrigo Medeiros

Por Rodrigo Medeiros

Um novo relatório da Economist Intelligence Unit (EIU) chamado “Growth in an uncertain global environment” traz um olhar de preocupação para a América Latina. Algumas das muitas questões apontadas no relatório já foram debatidas em outras postagens neste espaço [1].

O fato de as maiores economias da região serem grandes produtores de commodities fez com que o quadro de desaceleração econômica se agravasse, pois a queda dos seus preços internacionais desde meados de 2014 e as preocupações com o crescimento chinês elevaram temores dos mercados financeiros sobre as perspectivas da região.

Moedas nacionais na região sofrem pressões por desvalorizações cambiais e as políticas monetárias enfrentam um delicado dilema. Devem as autoridades monetárias da região elevar as taxas básicas de juros para combater as pressões inflacionárias derivadas dos repasses das desvalorizações cambiais das moedas nacionais quando as economias estão desacelerando?

A inflação deverá crescer no curto prazo na região inclusive por conta do encarecimento das importações. Certas taxas de inflação estão elevadas: em julho atingiu 9,6% acumulados para o Brasil (centro da meta de 4,5%), 4,6% no Chile (para 2-4% de alcance da meta) e 4,5% na Colômbia (para 2-4% de alcance da meta). O México, por sua vez, é a única grande economia da região com inflação subjugada (2,7%), porém a depreciação cambial do peso recentemente deverá reverter essa situação nos próximos meses.

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