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Um dia na vida conturbada do urubu que tinha o rabo preso, por Sebastião Nunes

Um dia na vida conturbada do urubu que tinha o rabo preso

por Sebastião Nunes

O almoço chegara ao fim. Deliciado, o urubu-rei-do-planalto-central raspava os derradeiros fiapos da carniça que ele e seu bando devoravam. Era uma carniça enorme, fedorenta como ela só. Talvez a carniça da Previdência Social. Quem sabe a carniça da Educação Fundamental. Ou ainda a carniça dos Direitos dos Trabalhadores. Mas que era deliciosa, fosse a carniça que fosse, lá isso era.

Saciado, o urubu-rei-do-planalto-central arrotou. Bocejou. Abriu as longas asas escuras espreguiçando-se com prazer. Apoiou as patas no chão e, bico erguido, lançou-se no espaço azul da manhã que findava.

– Diacho! – resmungou ele, constatando que as asas lhe pesavam que nem chumbo. – Estarei ficando mais velho do que sou? Nunca me pesou tanto o corpo nem jamais tive tanta dificuldade para alçar voo. Alguma coisa está errada.

Virou o bico para trás e viu que, logo ali perto, voava o urubu-secretário-geral-do-planalto-central.

– Tudo bem, meu caro urubu-secretário-geral? Gostou do almoço?

– Adorei – ripostou o urubu-secretário-geral. – O diabo são essas asas pesando que nem chumbo. Tá difícil pra cacete voar assim.

 Olhou o urubu-rei-do-planalto-central para o traseiro do urubu-secretário-geral e viu saindo dali, do emplumadíssimo rabo, inumeráveis outros urubus, enorme montoeira de urubus, presos por correntes de ouro ao rabo do urubu-secretário-geral.

 

CORRENTES SEM FIM

– Engraçado isso – espantou-se o urubu-rei-do-planalto-central. – Não sabia que o urubu-secretário-geral tinha o rabo preso a tantos outros urubus. Deve ser isso que está tornando tão difícil seu voo. Será que ele não percebe?

– Meu caro urubu-secretário-geral – explicou o urubu-rei-do-planalto-central –, o que deve estar pesando suas asas é essa quantidade enorme de urubus pendurados no seu rabo por correntes de ouro.

– No meu rabo? – Espantou-se por sua vez o urubu-secretário-geral. – Não vejo nada pendurado no meu rabo. No rabo de vossa excelência, sim, vejo centenas ou milhares de urubus, presos por correntes de ouro.

O urubu-rei do-planalto-central posou com dificuldade num galho de eucalipto e se pôs a meditar em voz alta, como se interrogasse o urubu-secretário-geral.

– Será que os urubus pendurados no rabo do urubu-secretário-geral são visíveis pra mim, mas invisíveis pra ele? E será que, ao contrário, os urubus pendurados no meu rabo são visíveis pra ele e invisíveis pra mim?

Disposto a resolver a pendenga e olhando mais longe viu o urubu-chefe-da-casa-civil que voava com tremenda dificuldade.

– Meu caro urubu-chefe-da-casa-civil, tudo bem com você? – perguntou o urubu-rei-do-planalto-central ao urubu-chefe-da-casa-civil.

– Quase tudo – respondeu o urubu-chefe-da-casa-civil. – O diabo é que as asas me pesam como se de chumbo fossem. E não tenho nada me atrapalhando, depois do farto e delicioso almoço de finíssimas carniças, ao contrário do que vejo pendurado no rabo de vossa excelência e no rabo do urubu-secretário-geral.

– E o que vê em nosso rabo? – perguntou curioso o urubu-rei-do-planalto-central ao urubu-chefe-da-casa-civil.

– Vejo uma quantidade incrível de urubus presos com correntes de ouro nos rabos uns dos outros. Correntes de ouro no rabo de vossa excelência e correntes também de ouro no rabo do secretário-geral.

– Mas não vejo nada preso no meu rabo – respondeu o urubu-rei.

– Nem eu – respondeu o urubu-secretário-geral que ouvia atentamente ali perto. – Só vejo montes de urubus presos no rabo do urubu-rei-do-planalto-central e no rabo do urubu-chefe-da-casa-civil. No meu, não vejo nada.

 

DESVENDANDO O MISTÉRIO

Olhou para bem longe o urubu-rei-do-planalto-central. E viu que todos os urubus de seu séquito, que eram centenas, traziam inumeráveis urubus presos a seus rabos por correntes de ouro, de modo que havia milhares – e bota milhares nisso! – de urubus presos nos rabos uns dos outros. E todos presos por correntes de ouro!! Deviam valer uma fortuna fabulosa aquelas correntes de ouro!!!

Um lavrador, que passava por ali com sua enxada velha no ombro magro, olhou para o céu e estatelou-se admiradíssimo:

– Cruzes. Nunca vi tanto urubu junto!

De boca aberta, olhando para o alto, perguntou ao filho que o acompanhava:

– Olha lá no céu, filhote! Tá vendo aquela urubuzada?

O garoto olhou para cima e abriu a boca, mais espantado que o velho pai:

– Vixi Maria! Nunca vi tanto urubu junto! Só não escureceu porque tem uma montoeira de correntes brilhando quase que nem o sol!

– E ocê tá vendo que todos estão presos por essas correntes brilhantes nos rabos uns dos outros?

– Tô vendo, sim, pai. É uma urubuzada danada. E tudo agarradinho no rabo uns dos outros. Parece coisa do capeta.

– Não sei não, filhote – filosofou o lavrador. – Mas esse bando de urubus acorrentados uns nos rabos dos outros tá me parecendo aquele bando que tomou conta do governo do Brasil.

– Será deveras possível, pai? Urubu pode governar um país?

– No resto do mundo acho que não, filhote, mas aqui é bem possível. Ainda mais se estiverem presos uns nos rabos dos outros por correntes de ouro.

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ze sergio

un dia....

Os Yankees, a RGT,  Trump, o Capitalismo, Neoliberalismo, Forças Ocultas, o Maluf, o Renan, Consenso de Washington, Sarney, Daniel Dantas, a CIA por trás de tudo...Passados 4 décadas, 30 anos de nova Constiutição, a que seria Cidadã, e levaremos este país eternamente na Trilha da Fantasia e das Desculpas? Este era o projeto de país prometido por Anistiados, recebidos nos Aeroportos, com transmissão ao vivo da TV em pleno 1978? O resultado apresentado em 2017 é produto de trabalho e projeto de quem, então? Até porque Anistiados, todos, reformaram e ampliaram a Casa Grande, novos cômodos, maior peso da estrutura sobre a senzala, Casa Grande modernizou-se, virou Mansão. O Orçamento Público foi esticado para que coubesse nossa nova Elite. Regiamente e nababescamente financiada. E regiamente e nababescamente indenizada. Afinal, lutaram tanto por este Brasil de 2017, não é mesmo? As periferias representadas por Pedrinhas e Alcaçuz, decapitadas ou não, agradecem por tanta Democracia. E por tanta Representatividade. E por tanta liberdade. Afinal agora não existe mais censura, principalmente auto-censura imposta pela Imprensa. Mas nós aqui embaixo já conhecemos a eterna desculpa tupiniquim: a culpa é dos outros.    

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continuando a história...

E como aquela quadrilha de urubus estava tapando a luz do sol, necessária para florescer a lavoura, o lavrador e seu filho foram até suas casas e pegaram suas espingardas.

Cada tiro que davam, derrubavam um monte de urubus (todos os que estavam ligados pelo rabo uns nos outros). E a cada tiro certeiro, a luz do sol banhava de sadia energia a lavoura. E os urubus abatidos foram usados como adubo para futuras culturas.

 

 

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Não seriam patos cagados da merda preta dos urubus, os pendu...

Não seriam patos cagados da merda preta dos urubus, os pendurados?

Patos das Paulistas das fiesps brasileiras que viraram comida de urubu, diga-se. Que triste fim o desses milhares de patos, antes orgulhosos verde-amarelos, agora acorrentados ao cu dos urubus e desfilando assim nos céus do Brasil, à vista de todos.

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Francisco de Assis

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