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Os ruralistas e a preservação do meio ambiente, por Rui Daher

Os ruralistas e a preservação do meio ambiente

por Rui Daher

em CartaCapital

Sempre que a consciência nacional é alertada para a preservação ambiental, sobretudo no que se refere ao trato das águas, bom uso do solo, respeito aos biomas, valorização da biodiversidade, e a necessidade de frear o uso de princípios tóxicos prejudiciais à saúde, um imediatismo imbecil e interesseiro toma de estatísticas distorcidas, velhas e carcomidas, sem qualquer fundamento científico ou da pesquisa, para esfregar em nossas caras que, sem esse bacanal químico, nada teríamos para comer. São vítimas e nos fariam vítimas.

O mesmo poderá acontecer com o mais do que retardado Censo Agropecuário, anunciado pelo desgoverno ter começado. Sim, começou, mas em bases diferentes dos censos anteriores, o que dificilmente permitirá comparações válidas e conclusivas.

Foi simplificado para reduzir custos e apressar os resultados. As imperfeições, como sempre, foram jogadas nos ombros da “falta de recursos”, em Federação de Corporações, paraíso de quem vive de rentismo e sonegar impostos, auferindo renda transferida dos estratos mais pobres da população.

Será um instrumento quantificador de dados óbvios, genéricos, área, produção e produtividade por cultura, que outros programas já informam, até se pesquisados em órgãos no exterior (USDA, FAO, OCDE, por exemplo).

Sobre o “estado de arte” de nossa preservação escamoteiam até a Embrapa Monitoramento por Satélite com dados que dizem “a agricultura usar somente 9% do território nacional e a pecuária 13%”.

Que fosse isso, ainda não seria bom. Mas não é. O porcentual é calculado sobre total que inclui o extenso território amazônico, litorais, regiões urbanizadas, terras desertificadas ou desprovidas de infraestrutura logística, impossíveis ao plantio produtivo.

Vamos e venhamos, tomassem agricultura e pecuária o dobro desse espaço para cultivo de commodities gerariam um excesso de oferta que, de imediato, faria caírem os preços e quebrar a agropecuária. Lembrem-se: o Tesouro Nacional não está com essa bola para suportá-los.

Até que chegamos aos humanos que serão esquecidos pelo Censo. Para se defenderem, apontam 13% do território em posses indígenas, 17% em reservas ambientais, 3,5% com cidades (de algum lugar precisam para abrigar as concessionárias de picapes e SUV) e infraestrutura, principalmente estradas, para escoamento da produção, raras construídas pela iniciativa privada.

No mais, são terras devolutas, assentamentos improdutivos e os inférteis quilombolas, na acepção deles e a de um monstro cujo nome não ouso declinar.

Sentem-se injustiçados ao ter de cumprir um novo Código Florestal que eles mesmo gestaram. O Cadastro Ambiental Rural (CAR), de manter 33% da área como reserva legal, por sua própria conta, sem ajuda de ninguém, o governo, por supuesto.

“Vejam o absurdo, preservamos mais do que os índios e as áreas de reservas ambientais legais”, diria um membro da bancada ruralista, e iria para o céu, o que muito me alegraria.

Um pouco de verdade, em tempos de pós-verdade judicial, é bom.

Há meio século, vem sendo-lhes permitido, em nome da produção agropecuária, deitar e rolar sobre a preservação ambiental.

Foram mestres, com anuência dos sucessivos governos, nas três instâncias, e de multinacionais de agroquímicos, na levada dos “correntões”.

Houvesse no Brasil um Tribunal de Justiça menos corrompido pelo Acordo Secular de Elites, vocês seriam condenados por crime contra a humanidade, como o foram os nazistas, em Nuremberg. Portanto, parem de chorar o leite que derramaram, aceitem as leis e invistam para restaurar o malfeito por vocês e antecessores.

Em 2012, foi aprovada a Lei de Proteção da Vegetação Nativa (nº 12.651), para restauração da vegetação nativa situada em Áreas de Preservação Permanente (APP) e Reserva Legal (RL). Cumpram-na! Ou o escandaloso golpe se presta à esperança de a Lei ser derrubada?

Segundo o professor do Instituto de Geociências da UFMG, Britaldo Soares Filho, como citado pelo biólogo e técnico da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental, André Zecchin, no Valor Econômico da terça-feira 3, o Brasil “tem cerca de 21 milhões de hectares com déficit de vegetação nativa em APP e RL de propriedades rurais”.

Acham pouco? Mãos à obra, pois, meninos e meninas. Por que a resistência?

O professor e o André querem apenas ajuda-los, com 3 alternativas:

1. A regularização ambiental por força de lei;

2. A adequação da propriedade conforme aptidão agrícola;

3. A conciliação da restauração ecológica com atividade econômica.

Sei vocês muito competentes para saber qual a alternativa melhor, ou mesmo a forma de combinar as três.

Desonroso, para vocês, é ficar comparando agruras com indígenas, assentamentos e quilombolas.

Nota: recomendo fortemente o livro "O Trovão e o Vento", de Kaká Werá (Polar Editorial, 2016). Assim, como o "Dominó de Botequim", é claro.

 

 

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Tema crucial e urgente...

Tema crucial e urgente que é esse da preservação do nosso meio ambiente, que tem a ver com a nossa sobrevivência não tem, contudo, a merecida atenção e/ou interesse das pessoas.

Em minha cidade, Goiânia, há poucos dias a Record Tv apresentou uma reportagem que me causou grande tristeza e preocupação: a morte visível do Rio Meia Ponte que abastece essa Capital e mais ou menos outras 15 cidades do seu entorno.

Tudo isso devido à destruição do Cerrado Goiano, substituído em mais de 90% pelo agronegócio predador, que não respeita as margens prudenciais de 100m das nascentes, dos rios etc.

 

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zésergio

os.....

O sumiço das abelhas realmente é uma tragédia. Há poucos anos, qualquer barranco, qualquer canto de muro tinha uma Jataizinho. Qualquer cupinzeiro no campo tinha europa. Qualquer matinho mais fechado manduri, uruçu, sete-voltas, mandaçaia...Sumiram todas. É uma raridade achar abelha no meio do mato ou área rural. Mas onde estão as Prefeituras de cidades do interior, a maciça maioria, a incentivar a criação destas abelhas? Não adianta depois culpar o Trump. Sabedores disto, façamos um abaixo-assinado contra a Bancada e Indústria do Agro. Do Agrotóxico. Vamos atrás destas pessoas? Onde mora o dono da Pfizer? Onde é a sede da Rhodya, da Bayer? Acionemos a Interpol contra os Diretores da Basf, da Monsanto....Só que não !! Os presos tem sempre nome brasileiro: Marcelo, Joesley, Eike. As marcas são sempre nacionais JBS, Odebrecht, Queiroz Galvão....Mesmo que em Atibaia, onde o sr. disse ter ido estes dias, o maior problema de poluição e atentado ao Meio Ambiente, foi ter a Shell Holandesa, prostituído solo e águas do Rio Atibaia. Centenas de brasileiros acometidos de incidência de câncer, acima de qualquer média mundial.  Ou no maravilhoso mangue de Cubatão, santuário da Mata Atlântica, um dos mais fantásticos e singulares biomas do planeta, a Basf e Rhodya  (alemã e francesa, respectivamente) terem aterrado toda esta região com "Pó da China". Um dos produtos mais cancerígenos que existem. Que coisa feia !!! Será que estas empresas fariam isto na polida e civilizada Europa, sede de suas companhias e das Ong's Ambientais tão renomadas? Mas sabemos, o problema do Meio Ambiente é o Agronegócio. E sua bancada, a defender o Brasil. abs. 

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Zé Sérgio,

Todas as empresas por você citadas e os efeitos que causam sobre o ambiente pertencem ao agronegócio e são ferrenhamente defendidas e sustentadas (também o contrário) pela bancada ruralista. Abraços

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zésergio

zé....

Caro sr. Rui, nomes, caras estampadas em jornais, marcas sendo denegridas mundo afora, prisões, devolução de dinheiro, indenizações pesadas, responsabilização, criminalização, leis e leis, burocracia pesada encima desta gente, estrangulamento e asfixia, Interpol, Ajuda e Cooperação Judicial Internacional, causas e efeitos mostrados diariamente na mídia...Como por exemplo, na propaganda do pt, brilhantemente, que o nome de "Lula" não sai das bocas de Imprensa Golpista. Os maiores beneficíarios, os maiores lucros, as maiores tragédias nas cidades e no campo, passam desapercebidos, Lucro fácil, atraso e envenenamento do país. Deixam mortes e serviços braçais. Vendem o restolho. E onde estão na mídia? O Agronegócio, os Fazendeiros, Latifundiarios e Escravagistas, ou seja o Brasil, são escurraçados todos os dias. Esta é a diferença. Falando nisto, né Sakamoto, quando o Trabalho Escravo foi revelado muito mais intenso e dinâmico, nas cidades, principalmente em São Paulo, nascedouro de "Mortadelas e Coxinhas", sumiu dos noticiários. Ficou sem graça, acusar shoppings center, que todos frequentam, tem lojas, são sócios, estão nas portas das suas casas, por escravizarem peruanos, bolivianos, africanos, haitianos, vietnamitas, cambojanos, filipinos...e sair com o discurso do Politicamente Correto, usando marcas famosas Gucci, Ralph Lauren,  Saint Laurent, Zara,  Benetton,  Lacoste.... Progressista é "sentar o pau" em Produtor Rural, Agropecuária, Agronegócio. abs. 

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zésergio

os....

P.S. O indio da foto é um daqueles jogados num barranco de 10 mil M2 no Pico do Jaraguá. Ou algum abandonado na distante perfiféria da periferia de Parelheiros? Devolveremos São Paulo para eles? Estavam aqui, muito antes de chegarmos. Exigiremos Justiça para esta gente? Então teremos que arranjar outro lugar para Congonhas...No Morumbi, Sacro Santo Templo do Futebol, ninguém mexe. Só está faltando a gente perder pra Guarani. abs.   

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