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Silêncio sobre o oceano, por Fernando Venâncio

 

Apresentação de Gilberto Cruvinel

Portugal conhece Machado de Assis? O linguista, historiador da língua e pesquisador português Fernando Venâncio garante que Machado não é, em Portugal, a referência que poderia ter-se tornado. E esta constatação levou-o a concluir: “nós portugueses não merecemos tamanho autor do nosso idioma”. Na origem desta situação, Venâncio localiza as difíceis relações entre Machado de Assis e Eça de Queiroz. É sobre esta relação controversa e as críticas que ocasionou entre eles e que também produziram efeito nos escritos de ambos que versa o artigo escrito pelo pesquisador para a Revista Ler de Lisboa. Eça de Queiroz, nos diz Venâncio, queria ter estendido o contato com Machado, mas “depois depois das críticas deste ao O Primo Basílio, caiu entre eles o silêncio”.  Em tempo, nos últimos anos a situação do Bruxo do Cosme Velho em terras lusitanas melhorou um pouco, segundo o pesquisador: “Desde então houve 8 edições de Dom Casmurro e 4 de Brás Cubas. É alguma coisa. Mas Machado continua a não ser "referência", isto é, um autor que espontaneamente (!) se aduz como "um dos grandes" no nosso idioma.”

 

Silêncio sobre o oceano

por Fernando Venâncio

Pode, com alguma razão, perguntar-se porque será Machado de Assis, um dos topos da prosa em português, tão pouco conhecido entre nós. Em Portugal, nenhum dos seus romances é «long seller», raramente se lhe cita um título, ou o nome sequer. O romancista brasileiro não é hoje a «referência» em que pudera ter-se tornado, nem sequer nos espevita a vaidade o ter-se produzido em nossa língua tão suma arte. A recente enciclopédia literária Biblos dedica-lhe menos espaço do que a muitos «menores» dos dois lados do oceano, e apenas refere, de bibliografia portuguesa, o estudo de Alberto Machado da Rosa, Eça, Discípulo de Machado?, obra notável, mas propriamente queirosiana. Enfim, nós portugueses não merecemos tamanho autor do nosso idioma. Há coisas piores na vida, mas essa é já suficientemente lamentável.

Pode perguntar-se se merecemos a própria literatura brasileira. Afora os obrigatórios Amado, Rosa e Lispector (com públicos, para mais, altamente descoincidentes), afora esses, é quase o deserto. Conhecemos timidamente Ubaldo e Rubem Fonseca, e longinquamente Bandeira e Drummond. É certo que de Graciliano Ramos podemos dispor de magnífica edição (da Editorial Caminho) da obra completa, mas ela continua um segredo bem guardado. E quantos portugueses leram Macunaíma? Este romance de Mário de Andrade nunca é referido em inquéritos tipo «Os dez livros que levaria para a ilha deserta», ou «O que anda a ler», quando é um dos grandes livros em língua portuguesa. Aliás, obras brasileiras são nesses inquéritos (habituais no JL [Jornal de Letras] e na revista Ler) sempre uma extravagância – quando chegam a sê-la. Como explicar tudo isto?

Na origem de tal situação, poderia estar um factor já nada recente: as difíceis relações entre Machado de Assis e Eça de Queirós. Tivessem elas sido calorosas, ou pelo menos cordiais, e a estranheza entre as duas literaturas seria hoje decerto menor. Eça e Machado, largamente contemporâneos, e sabendo bem um do outro, jamais se encontraram. Tanto mar de permeio explicaria isso e até mais. Foram, de resto, vários os convites ao romancista brasileiro para conhecer Portugal (pátria quer da mãe quer da mulher), mas era invencível nele a pacatez, essa mesma pacatez – o mecanismo é conhecido – que produziria as atrevidíssimas Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Mas teriam Eça e Machado vontade de encontrar-se? A certa altura, com certeza. E esse teria sido, por uma vez sem vezes, um encontro histórico. Mas, e a verdade é esta, a história da literatura arrola sobretudo desencontros. Incomparavelmente mais à mão, também Camilo Castelo Branco não teve a dita de dispor de Eça senão numa furtiva visita a Seide. Ainda assim, o faltarem tais encontros físicos nunca pudera ser catastrófico. Havia os correios, e eles funcionavam excelentemente, quer pelo comboio quer por barco. O desencontro era de outra natureza. Foi Eça que não percebeu a ânsia de Camilo em prolongar o contacto, como foi Machado que ignorou o empenho de Eça em manterem-se correspondentes.

*

Tudo começou quando Machado de Assis leu O Primo Basílio, por Abril de 1878. O livro chegava ao Brasil com o picante do sexo explícito e do êxito editorial. Isso bastava para incomodar Machado, que era um céptico, e, como todos os cépticos, exigente. E Eça tinha, a seus olhos, entrado na facilidade. Não, os caminhos da ficção eram outros. Quais, não o sabia Machado bem ainda. Mas não aqueles. É o que expõe em dois artigos no Cruzeiro do Rio, que são transcritos pouco depois num jornal do Porto. Saído o primeiro artigo, pronto é enviado ao nosso cônsul pelo diligente editor. E lia-se nele já o essencial.

Sobre Eça escrevia Machado: «Eu, que não lhe nego a minha admiração, tomo a peito dizer-lhe francamente o que penso». E não é mimoso o que diz. O Primo Basílio era uma reincidência nos propósitos de O Crime do Padre Amaro, e isso «sem que a acção seja mais intensa, mais interessante ou vivaz, nem mais perfeito o estilo”. O Primo saía desta recensão estrangulado. Luísa não é uma «pessoa moral», é um títere. A concepção é incongruente, a trama um equívoco. Luísa não conhece o remorso, só o medo da criada. Se nisto houver tese ou ensinamento, é apenas esta: que «a boa escolha dos fâmulos é uma condição de paz no adultério».

No seu ensaio, Machado de Assis reunia o melhor de si, e não era pouco, em matéria de perspicácia, de humor, de virtuosismo expositivo. Estas coisas – esta frontalidade, esta exactidão expressiva – não as ouvia Eça em Portugal. E é essa a atenção, parece, que os autores mais apreciam.

Mas havia mais: Eça de Queirós via espelhadas nas observações do crítico algumas apreensões suas. De imediato decide escrever a Machado, afirmando-lhe: «O seu artigo, pela sua elevação e pelo talento com que está feito, honra o meu livro, quase lhe aumenta a autoridade». Promete, em seguida, reatar o contacto logo que conheça a continuação, não para defender os «graves defeitos» dos seus romances, mas em apoio da «Escola Realista». E termina: «Espero ter em breve oportunidade de conversar com V. S.ª – através do oceano – sobre estas elevadas questões da Arte».

Só que, depois disto, caiu entre eles o silêncio. Nem um nem o outro tomará a iniciativa. Eça ainda redigirá uma resposta a Machado, implícita mas inequívoca, num prefácio que preparava para o Padre Amaro. Não a dará. Ou dá-a, mas torta. Ainda assim, esse mesmo romance levará a demão que o brasileiro sugeria. E a obra em que tanto investiu, Os Maias, iria decerto satisfazer quantas exigências de feitura e moralidade ao observador sobrassem. E Machado? Ainda enviará ao colega português, em 1892, um exemplar de Quincas Borba. Um amigo comum, que em Paris leu o exemplar antes de ele chegar a Eça, garantirá a Machado ser o cônsul português «talvez o seu maior admirador na Europa».     

*

Esta história é contada, com pormenores, na monografia já citada de Machado da Rosa, Eça, Discípulo de Machado? Um Estudo sobre Eça de Queirós. O ensaísta admite, entre mais, que alguém tenha um dia informado Eça do «invencível horror» de Machado de Assis a polémicas.

Existe uma outra avaliação destes mesmos factos. Ela é fornecida pelo investigador holandês August Willemsen, tradutor de Machado (e também de Drummond e de Pessoa). Segundo ele, a leitura do Primo Basílio não teria apenas confirmado em Machado de Assis uma fundamental desconfiança do Realismo, como, e sobretudo, teria feito surgir nele uma concepção totalmente nova do romance. O Machado que, aos quarenta anos, fecha o Primo Basílio é um autor que pula, das suas novelas românticas, directamente (isto é, por sobre o Realismo) para a radical originalidade de Brás Cubas. Os romances de Eça de Queirós não eram só o desequilíbrio, o fiasco: eram o pesadelo em que importava nunca resvalar.

É arguta a apreciação, e parece explicar cabalmente o silêncio de Machado. Com efeito, encontrada que está a senda luminosa, Eça deixou de interessar-lhe como interlocutor. Machado de Assis (perdoem-me os deuses do vernáculo) já está «noutra», incontactável para um Eça definitivamente desinteressante.

Cada um lucrara, assim, com o outro. E, se Eça o concedia ainda que sem entusiasmo, Machado jamais arrancaria da pena tal confissão. Eça de Queirós, portanto, «discípulo de Machado»? Parece patente. Machado discípulo de Eça? É mais que admissível. A «fecundação» (o termo é de Machado da Rosa) terá sido, deste moldo, não apenas «do mais luminoso artista de Portugal pelo mais profundo espírito do Brasil». Ela foi, antes, mútua. E nós por nada trocaríamos o Eça de Queirós e o Machado de Assis que dali irromperam.

Tinha-nos feito bem a todos, sim, um pouco mais de contacto entre eles, um macinho de cartas crescendo de um lado e outro do oceano. Ganharam as susceptibilidades, ganhou a convicção de serem irredutíveis os pontos de vista. Dois espíritos imensamente ricos, subtis, e interessantes, roubaram-nos um espectáculo irrepetível. Ainda é isso o que mais dói.

Revista LER, Lisboa, 1996

Incluído no volume Último Minuete em Lisboa, Assírio & Alvim, 2008

Fernando Venâncio (1944). Nascido em Portugal, viveu meio século na Holanda. É linguista e historiador da língua portuguesa, colaborando em revistas internacionais da especialidade. É também autor de ensaios literários e traduziu do holandês poesia e ficção para editoras portuguesas.

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Ana Arrigoni

Obrigada Cruvinel

O texto do Fernando é de uma delicadeza portuguesa que é uma graça. Adorei como finalizou no último paragráfo. Quanto a Eça e Machado, essenciais para a minha amada língua portuguesa.

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Silêncio sobre o blogue....mudando de assunto

Lendo a introdução/apresentação instigante feita pelo Gilberto Cruvinel é impossível não embarcar na leitura do post. O artigo "Silencio sobre o oceano" do Fernando Venâncio é muito interessante, cativante e gostoso de ler. Engraçado imaginar as relações cerimoniosas e as idiosincrasias de dois monstros sagrados da literatura lusobrasileira diante dos meios limitados do mundo antigo e da comunicação e mobilidade precárias de quase seculo e meio. 

Como no blog predominam as coisas da política (e a crise atual é muito séria) os posts provocam conflitos, mal entendidos e até desaforos entre os comentaristas. Mas o assunto apresentado pelo Cruvinel é um balsamo para quem prefere literatura e não embates ideológicos e está sempre aberto para coisas mais edificantes que tocam a alma e passam ao largo do fígado. 

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Orlando Soares Varêda

Gostei de mais da

Gostei de mais da conta...incluindo aí, contentamento pela excelente apresentação de Gilberto Cruvinel. Ganhei meu domingo.

Orlando

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Eduardo Outro

Conclusão : Entre Machado e

Conclusão : Entre Machado e Eça, fique com os dois.

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Fani Goldfarb Figueira

Concordo plenamente. Entre

Concordo plenamente. Entre Machado e Eça, leia os dois. 

 

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