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O Samba presta tributo aos Caboclos do sul do Brasil, por Cesar Monatti

O Samba presta tributo aos Caboclos do sul do Brasil

por Cesar Monatti

A terça-feira desta semana, 3 de outubro, marcou a apresentação ao público do recém-criado Bloco de Samba Contestado, não por coincidência, homônimo do grande movimento social ocorrido na Região Sul do Brasil há cerca de um século e que é conhecido como Guerra do Contestado.

O bloco surge como uma iniciativa estritamente cultural e segue a trilha aberta pelo Pega o Lenço e Vai cujos cortejos ocorrem em Mauá, no ABCD paulista e têm se consagrado à temas referentes à cultura afro-brasileira.

Para apresentar Bloco Contestado ao público, seu grupo de fundação escolheu a forma de uma “aula magna” com dois estudiosos que têm notável produção sobre o tema, cada qual nas suas respectivas áreas de atuação e, naturalmente, contam com a sinergia que elas possibilitam na difusão do movimento dos caboclos sulistas.

Durante aproximadamente uma hora e meia de exposição e perguntas dos participantes, a cineasta Marcia Paraíso e o professor universitário de História, Paulo Pinheiro Machado, compartilharam seu conhecimento e vivências de campo focadas no reconhecimento do movimento de sertanejos que, entre tantos inimigos poderosos, se defrontou com a Southern Brazil Lumber & Colonization Co. Inc, que hoje, é provável,  ostentaria a pedante sigla de SPE, comandada por um daqueles “empreendedores” da transição entre os séculos XIX e XX, nos quais a imagem de Tio Patinhas se inspirou, Percival Farquhar.

O interesse pelo movimento social do Contestado, referido quase sempre como “guerra”, fizeram com que se encontrassem a produção do professor Paulo, que atua na área de História Social do Campesinato e, entre outras obras, publicou “Lideranças do Contestado” e da cineasta Marcia, que é diretora e roteirista e que tem no seu currículo, além de um recente longa-metragem de ficção, “Lua em Sagitário”, o documentário “Terra Cabocla”, de 2015, que busca o resgate da força de resistência cultural do povo caboclo do sul do Brasil, em geral subsumida na narrativa laudatória e midiática sobre a cultura ‘europeia’ dos estados de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná.

O Bloco de Samba Contestado se inaugura, assim, disposto a sair pelas ruas de Florianópolis no próximo carnaval para cantar, sambar e apresentar os tantos monges João Maria, o monge José Maria, as virgens Teodora e Maria Rosa e o último líder do movimento, Adeodato, entre tantos outros combatentes anônimos.

“Pelados” é como foram chamados estes heróis populares, reverenciados, até hoje, apenas nos limites geográficos dos seus extintos redutos onde, por outro lado, têm sua memória vilipendiada de forma recorrente pelos donos desde sempre do poder local.

Entre outras razões, é por isso que a história desta enorme população, incomparavelmente maior do que aquela envolvida noutro movimento de sertanejos, o conhecido Canudos, permanece desconhecida da maior parte dos seus compatriotas contemporâneos.

Esta latente invisibilidade dos caboclos joaninos que dedicaram sua vida a uma causa social, respaldados por uma motivação espiritualizada que foi encarnada pelos inúmeros monges que os lideraram, é que o manifesto de fundação do Bloco Contestado afirma ter a intenção de, juntando forças com artistas e intelectuais como Marcia Paraíso e Paulo Pinheiro Machado, transformar em louvor a partir desta monumental manifestação de cultura popular do Brasil composta pelo samba e seu palco mais célebre, o Carnaval de rua.

 

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"Aula Magna - Bloco do Contestado" por Nilton O Santos F
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Bela reportagem. Apenas uma observação: no sul do Brasil, segundo Darcy Ribeiro em "O povo brasileiro", não há caboclos, mas MATUTOS. Caboclos são os mestiços da região amazônica. Além do mais, há os caipiras, os sertanejos e os crioulos que, juntamente com os imigrantes formam "o povo brasileiro".

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Serjão

Grande orgulho do povo brasileiro

A nossa arte, principalmente a música, sempre foi motivo de muito orgulho.

Até o dia que o deus mercado baixou de vez em nossas terras, trazendo o lixo para transformá-lo em m**** = dinheiro.

 

 

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Emma

Resgate

Que bela ideia juntar a História -pouco contada com a festa mais popular do Brasil! Parabéns ao grupo.

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