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Estudo analisa cobertura de jornal no caso Roger Abdelmassih

Enviado por Alfeu

do Jornal da USP

Estudo analisa cobertura de jornal no caso Roger Abdelmassih

por Valéria Dias, Jornal

Nas reportagens, as mulheres eram tratadas como acusadoras. Mas, para o Ministério Público, elas eram vítimas

Uma pesquisa realizada na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP analisou as reportagens do jornal Folha de S. Paulo sobre o caso Roger Abdelmassih, publicadas entre janeiro de 2009 e maio de 2015. De acordo com o estudo, o discurso jornalístico usado estava em desacordo com o discurso jurídico do Ministério Público Estadual (MP).

“O jornal se referia às mulheres como acusadoras. Porém, quem estava acusando era o Ministério Público. A Folha de S. Paulo somente começou a chamá-las de vítimas após Abdelmassih ser condenado e fugir do Brasil”, conta a autora da pesquisa, a jornalista Lieli Karine Vieira Loures Malard Monteiro.

O ex-médico Roger Abdelmassih, preso no Paraguai com apoio da Polícia Federal brasileira –
Foto: Secretaria Nacional de Antidrogas do Paraguai

Roger Abdelmassih, ex-médico especialista em reprodução humana assistida, foi condenado a 278 anos de prisão por cometer crimes contra a dignidade sexual de 37 pacientes. Posteriormente, a pena foi reduzida para 181 anos.

Folha de S. Paulo foi escolhida por ter sido o primeiro jornal do País a publicar uma reportagem sobre o assunto e a cobrir todo o caso. Lieli analisou 48 reportagens veiculadas no caderno Cotidiano e dois artigos assinados. Também entrevistou duas jornalistas da Folha e algumas das mulheres vítimas do ex-médico. Conversou com profissionais do Judiciário, alguns deles envolvidos diretamente no caso, e pôde discutir, com esses especialistas, o conteúdo das reportagens publicadas pelo jornal.

 

Análise da cobertura

Lieli analisou as reportagens e dividiu a cobertura jornalística nas seguintes fases: investigação (de 9 de janeiro a 28 de fevereiro de 2009); indiciamento e condenação (24 de junho de 2009 a 24 de novembro de 2010); e fuga e captura (7 de janeiro de 2011 a 31 de maio de 2015). Segundo a pesquisadora, o discurso utilizado para denominar as mulheres coincidia com as palavras dos advogados de defesa.

“Quando se tem um volume grande de textos dizendo que essas mulheres são acusadoras, cria-se a ideia de que elas não são confiáveis. A imagem que se criou delas é condizente com a cultura do estupro, que sempre coloca dúvida sobre a palavra das vítimas. Quanto a Abdelmassih, foi apresentado como médico renomado”, destaca.

Para Lieli, o jornal se deu o direito de usar termos jurídicos de uma forma leiga e isso pode confundir o leitor, pois não esclarece questões jurídicas importantes. Com isso, formou-se uma falsa impressão sobre o que estava acontecendo, pois parecia que as mulheres estavam acusando injustamente.

“Quando a Folha não usa claramente os termos corretos, ela acaba fazendo o que não quer fazer: serve de tribuna, julga as mulheres. Não houve um pensamento crítico do que estava ocorrendo, nem contextualização dos estupros, nem questionamentos sobre como uma vítima se comporta, quais os danos psicológicos, ou mesmo como culturalmente as mulheres são educadas para não reconhecerem o estupro”, aponta. “Isso empobreceu a discussão porque se perdeu a dimensão do contexto social do estupro. Era algo que poderia ter sido feito dentro de um veículo de porte como a Folha de S. Paulo.”

Lieli considera ainda que a cobertura do jornal também perdeu a oportunidade de discutir as alterações da Lei de Estupro no Código Penal, ocorridas em agosto de 2009. “Antes, estupro era considerado ‘crime contra os costumes’: quando um homem constrangia uma mulher à conjunção carnal (penetração da vagina exclusivamente pelo pênis). Era preciso que os agressores fossem apenas homens e as vítimas apenas mulheres. Se a agressão fosse sexo anal, seria enquadrado como ‘atentado violento ao pudor'”, explica a pesquisadora. “Com a alteração da lei, estupro passa a ser considerado ‘crime contra a dignidade sexual’. O ‘atentado violento ao pudor’ deixa de existir e é incorporado à nova definição de estupro. As discussões envolvendo essas mudanças poderiam ter sido feitas, mas foram perdidas”, lamenta.

 

Da imprensa para o Ministério Público

Segundo a pesquisadora, o Ministério Público tomou conhecimento do caso por intermédio de um produtor da TV Globo, que procurou os promotores e mostrou um vídeo com a denúncia anônima de algumas mulheres. O MP começou a investigar o caso. Os promotores conseguiram o contato de algumas e conversaram com elas. Eles perceberam indícios que apontavam Abdelmassih como autor dos crimes. Foi quando o MP apresentou a denúncia e passou a acusá-lo formalmente. “Era, portanto, o Ministério Público que acusava Abdelmassih de ser o autor dos crimes e não as mulheres”, ressalta Lieli.

A promotoria convidava Abdelmassih para ir lá falar com eles mas, ou ele não comparecia, ou mandava o advogado em seu lugar. O processo chegou a desaparecer do Fórum e reapareceu tempos depois, dentro de um banheiro. “O promotor me contou que decidiu procurar a imprensa pois, sem ela, o caso não iria para a frente devido à gigantesca influência do médico. Porém, a TV Globo recuou e desistiu de dar a matéria. Então o promotor falou com a revista Veja, mas eles analisaram o caso e optaram por também não divulgar nada”, conta Lieli.

Atualização do status do foragido na Interpol. Abdelmassih foi condenado a 181 anos de prisão pelo estupro de suas pacientes. Ele chegou a cumprir prisão domiciliar, mas retornou à cadeia – Foto: Divulgação/Polícia Federal

Foi nesse momento que o promotor foi procurado por uma jornalista da Folha de S. Paulo que, coincidentemente, havia recebido uma denúncia contra Abdelmassih e estava apurando a informação. Foram cerca de dois meses de apuração da Folha até a publicação da primeira matéria, em 9 de janeiro de 2009.

Depois da publicação da primeira matéria, a Folha de S. Paulo e o Ministério Público começaram a receber dezenas de ligações de outras mulheres contando que também foram vítimas do ex-médico. Quanto mais matérias eram publicadas, mais novas denúncias surgiam. “Segundo as jornalistas daFolha, a redação recebia e-mails com denúncias anônimas envolvendo Abdelmassih. E antes disso já existia um boato dentro da redação sobre um médico muito famoso de São Paulo que ‘cantava’ as pacientes”, finaliza.

A dissertação de mestrado Estupro na imprensa – O processo de trabalho de jornalistas e profissionais de direito na cobertura do caso Roger Abdelmassih pelo jornal Folha de S.Paulo (2009-2015), na perspectiva de estudos de jornalismo, da legislação e das práticas do Poder Judiciário e dos estudos feministas foi apresentada na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP em março de 2016, sob a orientação da professora Alice Mitika Koshiyama.

Mais informações: e-mail [email protected], com a pesquisadora Lieli Loures

http://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-humanas/estudo-analisa-cobertura-de-jornal-no-caso-roger-abdelmassih/

 
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João de Paiva

O PIG/PPV age como persecutor/juiz ou como advogado...

O que essa pesquisa  mostra é que o PIG/PPV age como acusador/linchador, como juiz/condenador ou como advogado de defesa, dependendo de quem e a qual estrato social pertencem aqueles suspeitos de cometer algum crime.

Na Fraude a Jato e em toda a trama golpista, o PIG/PPV atuou e atua como persecutor/ linchador e como juiz/condenador quando as pessoas objeto de investigação e peresecução judicial pertencem ao PT e/ou à Esquerda Política; a escancarada perseguição ao Ex-Presidente Lula e à família dele, a líderes petistas (como José Dirceu e José Genoíno) e a Ex-Ministros que serviram aos governos do PT confirma essa tese cabalmente. Por outro lado a blindagem e proteção dadas à direita política golpista, escravocrata, plutocrata, cleptocrata, privatista e entreguista (simbolizada pelo PSDB e outros partidos e pela burocracia do Esatdo) mostram o reverso da moeda, quando o PIG/PPV atua como advogado de defesa.

Roger Abdelmassih pertence a uma casta que é integrante a elite escravocrata, plutocrata, cleptocrata, privatista e entreguista: a classe médica, um das mais reacionárias e anti-democráticas, como se viu na irracional fúria contra o Progrma Mais Médicos, que arregimentou médicos estrangeiros, sobretudo cubanos, para prestarem serviço de assistência médica à população pobre do interior do Brasil e das periferias, locais onde os médicos brasileiros NUNCA quiseram atuar, mesmo recebendo bons salários e trablahando em horário reduzido.

Fica claro que a FSP, apesar de acompanhar os fatos e saber que dezenas de pacientes poderiam ter sido (ou de fato  foram, como as investigações provaram depois) molestadas por um médico famoso, o que é mostrado pela coerência das narrativas apresentadas pelas mulheres que foram vítimas de abuso sexual  cometido por Roger Abdelmassih, o jornal da plutocracia burguesa preferiu colocar em descrédito os depoimentos das vítimas, rotulando-as de acusadoras, enquanto ao médico devotava elogios, como o de chamá-lo de maior especialista em reprodução assistida, que ajudou milhares de mulheres a engravidadrem, sendo responsávelpor 1/3 dos nascimentos de bebês "de proveta", etc., etc.

É muito importante que trabalhos acdêmicos, usando méodos científicos, mostrem aquilo que nós, leitores/ouvintes/telespectadores atentos, observadores e críticos notamos a há muito tempo e denunciamos, dirariamente, por meio de comentários e artigos nos blogs e portais progressistas e independentes.

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Complementando

O que enfraquece a tese da pesquisadora é tão somente o título na sua parte final:..."e dos estudos feministas".

É de se ficar atento que qualquer coisa que tenha o título feminino, feminista, fêmea, já provoca indisposição.

Criou-se um comando negativo para essas expressões que como um gatilho desperta animosidade tanto na leitura quanto na audição.

Ademais, esse assunto, violência e abuso sexual tem  sempre sua importância  diminuida  pela mídia quando o agressor é homem, e  sempre é ele, porque ele entende que o abuso é natural. A mídia é falocentrista.

O tratamento, portanto,deveria ser genérico: "O estupro na imprensa..... ( o título todo, menos os estudos feministas) para não restringir seu alcance e, principalmente, não é só às feministas que interessa esse assunto. Quem abusa, abusa de todos:  de homem(que não conta por vergonha), de menino (que sofre em silêncio e tem seu futuro comprometido), de incapazes (pessoas doentes, em coma, ou sob seus cuidados) e de animais.

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O amor é lindo!

Tarado velho

tem que ter dinheiro e status.

Além de não perder o brioco na cadeia, ainda vai usar tornozeleira na mansão, junto com a esposinha filé.

Dinheiro não traz só  felicidade, traz impunidade também.

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O amor é lindo!

..."esposinha filé" Isso não

..."esposinha filé"

Isso não é um adjetivo.

É um achado.rsrsrs.

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Demorou décadas para que os

Demorou décadas para que os jornais tratassem como suspeitos aqueles acusados de crimes. A dissertação de mestrado propõe que se retroceda voltando a fazer o acusado ser previamente culpado e as acusadoras previamente vitimas. Não é mais racional esperar o processo investigatorio para entao fazer o julgamento?

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João de Paiva

Mas já houve processo, julgamento e condenação do médico

Caro André Oliveira,

O que o estudo mostra é que dependendo da posição social - no caso um médico famoso, rico, cuja clientela pertence ao topo da pirâmide sócio-econômica - da pessoa que é suspeita de ter cometido crimes, o tratamento que lhe dão os véculos da chamada "grande mídia comercial" será distinto.

Quando o suspeito pertence ou se identifica com a casta dos endinheirados ou possuidores de "notório saber", reconhecidos ou integrantes da mesma classe social a que pertencem os barões da mídia oligopolista, a ele é devotado um tratamento vip, de celebridade ou de reconhecimento, como no caso de Roger Abdelmassih, a quem a FSP tece largos eleogios, como "o maior especialista e reprodução assistida", "médico responsável pelo nascimento de 1/3 dos bebês de proveta  no Brasil", "médico responsável por mais de 7 mil nascimentos de crianças, a apartir de casasis com problemas de infertilidade", etc. etc, como ilustrado na reportagem.

Note que a Roger Abdelmassih a FSP e outros veículos do PIG/PPV concederam integralmente a presunção de inocência, garantida pelo Art. 5º da CF/1988. Os mesmos direitos garantidos nesse e noutros artigos da Carta Magna, são negados TODOS os dias ao Ex-Presidente Lula e ao outros líderes da Esquerda Polítca, como vemos há mais de 10 anos, desde aquel farsesco, midiático e criminoso - processo e julgamento - da AP-470, que condenou, SEM PROVAS, alguns líderes políticos, dentre eles José Dirceu e José Genoíno.

Misoginia, machismo e escravismo são também formas de perseguição e opressão-repressão políticas. Note que tudo isso está presente na forma como a imprensa trata de forma desigual as pessoas suspeitas ou acusadas de cometer crimes.

Não vou adjetivar, acusar ou julgar Roger Abdelmassih; quem tem atribuições para isso é o MP e o PJ. Contra esse médico, apareceram diversos depoimentos de pacientes, as quais disseram ter sido abusadas. Houve processo, coleta de depoimentos/testemunhos e provas, julgamento e condenação. Muito curioso é que, em vez de equanimidade, a FSP e outros veículos do PIG/PPV tomaram o lado do médico, rotulando de acusadoras aquelas que, depois da investigação, se provou que eram vítimas dos abusos cometidos pelo profissional da medicina. 

 

 

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